“Guerrilha do Bem”: Laura e as Árvores

Publicado em: 20/01/2013

A revista Vida Simples, edição 65, de abril de 2008, trouxe uma matéria intitulada Pé no Chão, Arte na Rua, que trata do protagonismo urbano. “O protagonista é o bairro”. A pessoa que o exerce é o artista – “artivista” -, o guerrilheiro do “Bem”. Hoje quero falar sobre ativismo urbano, outra forma de protagonismo. Sobre o artivismo, conversaremos outro dia.

Segundo a revista, Guerrilha do Bem é o conjunto de iniciativas que beneficiam a cidade e, portanto, as pessoas que nela vivem, como, por exemplo, a indicação espontânea de lugares legais como uma biblioteca comunitária, uma árvore que acabou de florescer, um boteco onde, toda semana, acontece um som maneiro, espaços onde rolam shows e espetáculos gratuitos ou a padaria que serve o melhor bolo de milho da cidade.

Propõe, entre outras, uma ação efetiva, as “bombas de sementes” que consistem em ações de semeadura de “plantas e flores” em áreas degradadas. Florianópolis também tem seus ativistas. Dia desses conheci Laura, uma guerrilheira urbana de identidade nada secreta.

Nome: Laura Botelho.
Codinome: Não tem.
Sexo: feminino.
Idade: 50 anos.
Residência: local conhecido.
Armas: pequenas lixeiras de garrafas Pet e mudas de árvores frutíferas e flores ornamentais.

Laura é uma mulher miúda e agitada. Fala rápido e fala muito. Pra ser sincera, fala mais que o homem da cobra. É praticamente impossível estabelecer um diálogo com a sua pessoa. Quando faz uma pergunta, antes que se possa articular a resposta, ela muda de assunto, a mente mais veloz do que a palavra. De vez em quando é preciso pedir licença para falar. Pode ser encontrada esvaziando lixeiras e semeando árvores nos canteiros entre o Elevado do CIC e o Shopping Iguatemi e arredores, na Trindade. Em sua empreitada, já plantou mais de 200 árvores e arbustos.

Dizer que Laura cuida do bairro como quem cuida da própria casa não é força de expressão, afinal, aquelas ruas hoje repletas de gente e de carros eram uma extensão do quintal da sua casa, quando nasceu, há 50 anos, filha de Ilza e de Lauro Botelho, ele nascido na Enseada do Brito. Pescador e padeiro de profissão, Seo Lauro criava porcos para ajudar no sustento da família. Foi ali, outrora um terreno imenso, que Laura aprendeu com a mãe, D. Zizinha, a amar os bichos, as flores e as árvores.

Cabeleireira aposentada, ela divide seu tempo entre os cuidados com o marido e o filho, a casa, os oito cachorros recolhidos na rua, a fabricação de mudas, o esvaziamento das lixeiras e o plantio pelos canteiros do bairro. Nas horas vagas, faz artesanato, reciclando o lixo que recolhe. Os objetos, expostos numa estante na entrada da residência, são distribuídos como presentes para as visitas.

Há quatro anos, Laura que há muito transforma restos orgânicos em terra boa em seu quintal, passou a fabricar pequenas lixeiras de garrafas Pet e a distribuí-las pelas ruas próximas à sua casa. Foi por causa dessas lixeiras que a conheci. Enquanto a maioria suja e polui, agindo como se a limpeza da cidade não lhes dissesse respeito, Laura empreende um trabalho solitário, como o daquele passarinho da fábula que tenta apagar o incêndio levando gotinhas de água no bico. Quis saber quem era essa pessoa. Pergunta daqui, pergunta dali… Achei a Laura.

Essa mulher é perigosa. De uns dias para cá, plantei uma árvore, dei pra fabricar adubo orgânico na varanda do apartamento (ela garante que não cria bicho), e só quero saber de avencas, suculentas e orquídeas. Definitivamente, fui cooptada!

1 responder
  1. eno josé tavares says:

    ESSA GRALHA”L´AURA”,É DE OURO OU UMA NOVA AURORA DE UMA FORMA DE BEM

    emociona o texto de Norma Bruno,com seus olhares vivos, sobre o mundo que nos cerca…Somos de uma geração,em que abraçar uma árvore no meio do mato ,e ,dizer-lhe eu te amo,era coisa de maluco e ou abobado…Nas minhas andanças quando menino,como pré adolescente e adulto,guardava as sementes das frutas que me deliciavam,para planta-las em locais protegidos…Dias desses vi uma jaqueira, que há cinquenta anos atrás,teve orígem em uma semente ,mais parecida com castanha que semente…Em outro lugar, um pé de mangas generosamente pejada de frutos maduros,debruçada sobre a calçada,murmurava…eis que estamos aquí…não te apetecem meus frutos?E no linguajar mudo de dois apaixonados,disse-lhe…guarda teus capitosos frutos,para os raros pássaros que te procuram…Mas muitas sementes se perderam e outras tiveram suas orígens destruídas,pela ganância imobiliária…Tive o raro privilégio ,de conhecer as famosas chácaras da Ilha Encantada…Algumas naturais,outras implantadas por familias abastadas do Centro da Cidade e bairros elegantes,quando um casarão palacete,para ter tal status,precisava ser cercado por chácaras,hortas e jardins…Saiam de nós,forças à Dona Laura em sua luta pelo bem e orgulho de vermos Dona Norma Bruno ,ter registrado a descoberta dessa heroina anônima tão palradora ,como uma ararara ou uma gralha ou quem sabe uma tiriva,sagrada renovadora de nossos recursos arbóreos…Hoje,domingo,o dia não foi em vão…Obrigado Dona Laura Botelho…É por isso que acredito, na existencia das Bruxas do Bem, de Nossa Ilha Encantada, e que os de alma simples e límpidas,vivam em estado de graça…Eno

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