O estranho boa-noite

Publicado em: 23/11/2011

Na década de 50 a maioria das emissoras de rádio, no Paraná encerrava suas transmissões antes da meia noite. A Rádio Guairacá, durante muito tempo terminava sua programação ás onze e trinta. Esse era considerado o pior horário para os locutores que dependiam de ônibus, que paravam de trafegar, à meia noite. Por essa razão ninguém gostava de fazer o encerramento da emissora. Qualquer distração e a volta para casa tinha que ser feita a pé. Encerrar e abrir as transmissões, eram tarefas que não agradavam locutores e operadores de som. Para fechar perdia-se o ônibus e para abrir as transmissões ás seis horas da manhã, tinha que acordar muito cedo, o que representava um suplício para os boêmios.

Num tempo em que as famílias costumavam dormir mais cedo, entendia-se que a audiência no início da madrugada podia ser considerada insignificante. Era mais uma razão para locutores e operadores desprezarem esse trabalho de encerrar e abrir as transmissões.

Quando trabalhou na Rádio Guairacá, o locutor José Carlos Baraúna, com sua excelente voz de um grave profundo, fazia locução no horário noturno até o encerramento das transmissões. Os textos de encerramento eram muito parecidos em quase todas as rádios. Agradeciam aos ouvintes e a Deus, falavam de paz e boa vontade etc.

O encerramento da Rádio Guairacá era mais longo e dizia mais ou menos o seguinte;  “A Rádio Guairacá de Curitiba, ZYM-5, A Voz Nativa da Terra dos Pinheirais, encerra suas atividades relativas ao dia tal… Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. Boa noite”.

Certa noite de  rigoroso inverno curitibano, José Carlos Baraúna, encerrava o período de transmissões imaginando que naquela hora, com tanto frio, não havia mais ninguém ouvindo rádio. Disse tudo o que estava no texto com uma pequena alteração que improvisou. Depois do “boa-noite” Baraúna acrescentou; “E vão todos a merda que isso não é hora de estar acordado ouvindo rádio”.

No dia seguinte ficou sabendo que a audiência era muito maior do que se imaginava e que entre os ouvintes, estava um indignado diretor da emissora, de quem Baraúna recebeu um aviso prévio.

Jamur Jr- (do livro Sintonia Fina)

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