27 anos

Publicado em: 28/07/2011

Por obra do acaso, voltei a 1984 e descobri que não havia ali qualquer razão para um ato extremado, uma decisão radical, uma interrupção violenta do curso dos fatos. Aquele foi o ano em que a Apple apresentou ao mundo o Macintosh, mas na redação do jornal eu batucava uma Remington de boa cepa e não cogitava, como ocorre ainda hoje, me curvar ao que é perigosamente transformador. Aquele ano também foi o da Olimpíada de Los Angeles, na qual o Brasil encantou o planeta com a sua primeira grande equipe de voleibol. O time de Bernard e Renan perdeu a final para os Estados Unidos, mas ali estava a semente de uma geração que brilharia um pouco depois, e por muito tempo.

Não sou de torcer para as cores do país, mas contra os ianques, vá lá…

Seja como for, entregar o ouro para os americanos sempre foi um esporte nacional.

Naquela altura, o Fluminense havia montado um timaço e foi campeão brasileiro, com Assis, Washington, Branco e Ricardo Gomes superando o Vasco de Roberto Dinamite. Enquanto os craques corriam atrás da bola, nasciam Carlito Tevez e Robinho – bem, aí já surgiam dois pretextos para uma autoimolação. Mas quem podia prever a tragédia que se daria nos campos duas décadas depois?

1984 também foi o ano das Diretas-Já, que sucumbiram à força avassaladora de quem não admitia dividir o poder assim, sem resistência. Houve quem pensasse em se jogar da ponte, mas não era para tanto… Nem George Orwell poderia imaginar que cinco anos mais tarde emergiria o nada, um fantoche que engambelaria, com o apoio da grande mídia, o país inteiro.

Naqueles dias, o palhaço Chaves era lançado no Brasil, e Arnold Schwarzenegger desfilava como o “exterminador do futuro”. Se o sujeito estivesse meio deprê, havia aí boas razões para tomar veneno de rato. Mas os traumas foram superados galhardamente. Até porque 1984 foi o ano de “Amadeus”, de “Asas da Liberdade”, de “Paris, Texas”… Michael Jackson lançaria “Thriller”, e Stevie Wonder viria de “ I Just  called to say I love you”. Carl Lewis seria guindado à categoria de fenômeno do atletismo, e por aqui o Joinville Esporte Clube enfileirava mais um título estadual. Os times da Capital eram amadores demais para ambicionar a derrubada da hegemonia interiorana.

Eu estava fazendo 27 anos, e sobrevivi. Não tive o destino de Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Meu destino era o anonimato, a insignificância, mas essa falta de fama e serventia me trouxe até aqui, com mais 27 em cima dos 27 iniciais. Que tal?

 

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