28 – Locutor a força

Publicado em: 15/09/2005

A constituição inglesa!
A constituição inglesa é baseada no bom senso! Não acreditam? Então continuem lendo. No capítulo anterior desta saga falei que tinha ‘adaptado’ um chuveiro Lorenzetti – que mandei vir do Brasil – no meu apartamento em Londres com banheiro sem chuveiro. 
Aguinaldo José de Souza Filho

Hoje, 40 anos mais tarde, já se vê chuveiros elétricos na Inglaterra. Será que o Lorenzetti teve algo a ver com isso?… Mas vamos ao episódio.

O dono do apartamento, um hindu, tentou aumentar o aluguel. Eu o levei ao tribunal de pequenas causas. Ao me defender, expliquei ao juiz as melhorias que havia feito, ilustrando com fotografias. O juiz ficou impressionado com o meu trabalho e suspendeu a sessão até dois dias mais tarde. Ele queria ir a minha casa ver o tal ‘chuveiro elétrico’! O juiz veio na manhã seguinte, admirou o que eu havia feito, louvou o meu investimento em propriedade alheia e ficamos de nos ver dia seguinte no tribunal.

As primeiras palavras que sairam da boca do magistrado inglês ao hindu foram veementes. “O Sr. na verdade, deveria reduzir o aluguél do apartamento por pelo menos seis meses. Este jovem fez uma magnífica melhoria em sua propriedade, e o Sr. tem a ousadia de vir aqui solicitar aumento de aluguél? Dê-se por satisfeito que não lhe passo uma multa por tomar o meu tempo para satisfazer sua avareza e prejudicar quem na verdade valorizou sua propriedade”!

Eu saí dali em estado de euforia. Que maravilha de sistema. Prevalece o bom senso e não o que poderia estar escrito n’alguma constituição tendenciosa. Nunca mais tive notícias do proprietário, que recebia o pagamento pelo correio. Maria Zappert, companheira na BBC, um dia me perguntou se eu tinha condições de manter um carro. Eu disse que sim, e ela me deu as chaves de seu Skoda. Sabendo que eu havia vivido na República Tcheca, e tendo dificuldade em achar peças para seu carro, ela o deu prá mim. “Você parece um cara jeitoso, vais gostar deste carro da terra da tua mulher”. Andar de metro em Londres é uma coisa, dirigir é outra completamente diferente. Procurando a via certa para ir do centro até Kilburn Park, no norte da cidade, tive o meu primeiro ‘fender-bender’, ou seja, pequena colisão que só amassou os parachoques. Aí ocorreu algo que nunca teria passado pela minha cabeça. A polícia veio, tomou as devidas notas e depoimentos, e fomos, os dois motoristas, direto para um tribunal de trânsito do bairro.
Ali mesmo as duas partes expuseram suas versões, e ouvir-se-iam testemunhas se houvesse, mas não houve. Em meia hora já estávamos a caminho de casa com o caso resolvido e devidamente arquivado!

Vários outros episódios similares ocorreram com o passar dos três anos que vivemos em Londres. Me registrei em cursos noturnos que só me custaram uma libra por ano – isso mesmo uma libra esterlina por ano! Fiz tratamento dentário gratúito, fiz óculos quase de graça, custou duas libras, porque escolhi uma armação fora do plano!

Enfim, os benefícios sociais do sistema ‘welfare’ inglês, o equivalente à previdência social no Brasil, são amplos, completos e imediatos. O atendimento médico nas clínicas é quase impecável.

Enfim, um paraíso social. Quero crer que hoje,  40 anos mais tarde, deva ter ficado um pouco mais difícil para os estrangeiros. Muitos outros países europeus oferecem atendimento similar a seus cidadãos, ao contrário dos Estados Unidos, onde você pode morrer caído na calçada à espera de uma alma caridosa que te ajude. Ao tentar dar entrada num hospital na terra do Tio Sam, se não tiver um cartão de convênio médico ou cartão de crédito à mão, você não entra! Dói-me o coração ver o que está acontecendo hoje em Nova Orleans. Qualquer outro país mais pobre já teria removido seus cidadãos daquela cidade condenada, hoje em baixo d’água. O governo Bush não só foi ineficaz como criminoso na forma como ‘não’ agiu em tempo para ajudar seu povo, levando a uma situação calamitosa dentro do país mais rico do mundo!

A minha pergunta é: se a maioria das pessoas refugiadas do Dome fosse branca, o socorro teria sido mais rápido?

Falamos.


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