Minha Adorável Vó de Laguna

Publicado em: 04/03/2012

Quando eu ficar velha quero ser como a minha Vó de Laguna. Chamava-se Aurelina (minha mãe recebeu o nome em sua homenagem) e era, na verdade, minha bisavó. Mas era assim que a chamávamos – Vó de Laguna – para diferenciá-la da filha Francisca, a Vó Chica, que morava perto da gente. A bisavó era daquelas avós das histórias infantis, baixinha, delicada e bondosa. Tinha o olhar sorridente, de um azul intenso, trazia o cabelo preso num coque, usava broche, xale e meia fina. Era alegre, vivaz, apesar dos muitíssimos sofrimentos e privações.

Tinha fama de andarilha porque morava em Laguna, mas vivia na estrada visitando a família na Capital. Vinha de malinha para “passar uns tempos” e ficava de três a quatro meses transitando entre as casas dos números netos. Preferia a casa dos netos porque as filhas queriam fazê-la sossegar o pito, segurar o facho e isso era a última coisa que aquela velha queria fazer na vida. Argumentava: – Se eu ficar em casa a Morte sabe onde me encontrar. Eu, hein? Se ela quiser me levar que me procure, eu é que não vou ficar aqui  esperando!

Todos a queriam na hora do aperto e nem precisava chamar. Bastava a carta chegar à Laguna e ela se desabalava para a casa do necessitado, “pra ajudar”. Se não havia o que fazer, ela ajudava do jeito que podia, ajoelhada, grudada no rosário. O neto pedia: – Reza por mim, Vó!Não precisa pedir, meu filho. A Vó vai rezar. Confia em Deus! Em Deus a gente confiava, mas contava mesmo era com a Vó. Aquilo sim é que era onipresença e infalibilidade! Salve Rainha, mãe de misericórdia!… De vez em quando aparecia de surpresa, pois tivera um pressentimento.

Era católica fervorosa, mas tinha sonhos premonitórios, conhecia ervas e benzeduras, rezava responso; fossem outros tempos, seria condenada à fogueira em praça pública. Adorava borboletas e tinha com eslas uma estranhíssima relação de cumplicidade.  Às vezes, dizia ensimesmada: – Tem alguma coisa acontecendo. Hoje uma borboleta veio me arrodear no jardim…

À noite, sentava num banquinho – o banquinho da Vó de Laguna, cada casa tinha um -, para pitar o seu palheiro, cujo fumo ela picava diligentemente com o seu canivete afiado – sim, minha bisavó tinha um canivete! – enquanto os bisnetos iam se instalando, em círculo, pelo chão. Alguém dava a senha: – Conta uma “estória” Vó? Ela, então, desandava a falar de castelos e reinos distantes, príncipes valentes e lindas princesas, pais omissos, madrastas abusivas e bruxas más. Hoje reconheço nessas “estórias” a riqueza da tradição oral, sua mitologia e os estágios da iniciação: a perda da inocência, a queda, a incursão pela floresta escura, o retorno à condição de selvagem, o circuito de provações, o aprendizado, o casamento sagrado e a recompensa final.  Conta de novo Vó? Ai, que saudade!

Enquanto contava histórias, ela enrolava o fumo, acendia o palheiro, pitava e passava o cigarro para o descendente mais próximo, não importava a idade – que, por sua vez, pitava, engasgava, tossia, mas não desistia e o passava adiante. O cigarro girava na roda repetindo uma cena ancestral: na escuridão da noite, uma tribo se reune e uma mulher velha conta histórias ao redor do fogo. Mais que o vício, ela socializava valores e nos conectava com o universo arquetípico e a Sabedoria do Mundo.

Um dia, eu tinha dezessete anos, ela foi embora. Desde então uma coisa estranha vem acontecendo. Sempre que algo importante está para acontecer, uma morte, o nascimento de mais uma criança, um casamento ou aniversário, uma mulher da família telefona para contar que, há dias, uma borboleta está parada no umbral da porta. É o sinal. Ela veio pra ajudar.

Bença Vó!

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