80 ANOS DA RÁDIO GAÚCHA: CÂNDIDO NORBERTO

Publicado em: 05/02/2007

Personagem fundamental da história da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, pelo menos em duas oportunidades, ajudou a reerguer a emissora e dar competitividade a uma estação então combalida pelas dificuldades e ameaçada por concorrentes mais poderosas. Por Luiz Artur Ferraretto

Nos anos 40, como diretor artístico em tempos de espetáculo radiofônico, define uma programação que consegue fazer frente à da poderosa Farroupilha, estação que tem, na época, o respaldo dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. Na década de 70, quando a segmentação ainda enfrenta dificuldades, o sucesso do seu Sala de Redação reforça as possibilidades do jornalismo no rádio.
No final da década de 40, Cândido elabora uma estratégia de concorrência em relação à Farroupilha e à Difusora. Contrata, entre outros, Walter Ferreira, Adroaldo Guerra e Tânia Maria, constituindo em torno deles um grupo de diretores, atores e atrizes. Com este cast, cria o programa Tapete Mágico, transmitido de segunda a sexta, das 20 às 21h, no horário nobre do rádio da época. Nos primeiros 30 minutos, o ouvinte acompanha o capítulo de uma novela. Entra, em seguida, Pensando em Voz Alta, com as opiniões do próprio Cândido Norberto. O comentário faz as vezes de divisor entre o radioteatro e a atração seguinte, o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã vai dialogando com amigos e fregueses em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dá nome a esta parte do programa e interrompe as opiniões satíricas mais fortes.


Cândido Norberto na Gaúcha dos anos 40.

O sucesso obtido é uma conseqüência direta das transformações acionárias da primeira metade da década de 40, envolvendo a própria Gaúcha e a Difusora. Quando obtém o controle da emissora, o empresário Arthur Pizzoli investe em equipamentos e infra-estrutura. Ao se desfazer da Difusora, concentra a captação de recursos publicitários em uma única rádio. Com o transmissor reformado melhorando o sinal, o auditório ampliado – o maior da cidade então – serve de palco para as atrações idealizadas por Cândido Norberto, entre as quais se destacam, no final da década, as radionovelas. Fora isto, um vantajoso acordo publicitário com a Cervejaria Brahma impulsiona o desenvolvimento da programação esportiva, com a Gaúcha apostando na transmissão de jogos de futebol, ponto fraco da concorrência.
Três décadas mais tarde, é a partir do Sala de Redação que a Gaúcha, então de conteúdo marcadamente eclético, vai empreender um processo, alternando períodos de avanços com outros de retrocesso, que a leva à liderança no segmento de radiojornalismo em meados da década seguinte. A idéia, simples e de baixo custo, de Cândido Norberto Santos aproveita as dependências e os funcionários do jornal Zero Hora para compor um programa que, em um primeiro momento, vai ao ar das 11 às 14h a partir de julho de 1971, utilizando também o pequeno estúdio da emissora ali instalado.
Cândido utiliza, assim, o nome de um programa de entrevistas também conduzido por ele no início da década de 60 na TV Piratini. A informalidade de um bate-papo, no entanto, dá a tônica da nova atração, característica que ganha mais abrangência à medida que alguns participantes fixos vão se integrando ao Sala, em especial o então inspetor da Polícia Civil, Paulo Sant’Ana, já conhecido torcedor do Grêmio Foot-ball Porto-alegrense com freqüentes passagens, como convidado, pelo programa Conversa de Arquibancada, da TV Piratini:
– Eu, por uma circunstância que não me lembro qual foi, vim aqui. Nessa época, era inspetor de polícia e vi, através do vidro do aquário, o Cândido Norberto fazendo o programa Sala de Redação sozinho, nas suas primícias. Ele me chamou para bater um papo lá dentro do estúdio. Eu conhecia o Cândido de outras circunstâncias, que não eram jornalísticas. Então, comecei a conversar com ele dentro do programa. Eu era gremista e me declarei, desde logo, gremista, e nós começamos a falar de futebol e o programa estava no ar. Enfim, depois de uma meia hora de conversa, o Cândido Norberto disse: “Olha, tu estás convidado para voltar aqui no programa. Eu gostei muito de conversar contigo”. Dois dias depois, eu voltei e, depois, passei a vir de dois em dois dias como convidado. Mais tarde, passei a vir todos os dias e, ao fim de 20 dias, eu já era pessoa conhecidíssima.


Cândido Norberto no Sala de Redação (1972).

A contratação de Paulo Sant’Ana começa a delimitar dentro do Sala de Redação um espaço para o debate esportivo, que, a partir da saída de Cândido da Gaúcha, dá o tom do programa. Antes, no entanto, destaca-se, em termos de serviço à população, o intenso acompanhamento dos concursos vestibulares e os esclarecimentos sobre as declarações do imposto de renda. Na parte noticiosa, marca a fase inicial do programa a cobertura dos problemas com um Avro, prefixo PP-VDV, da Viação Aérea Rio-grandense (Varig), que, com o trem de aterrissagem defeituoso, fica duas horas sobrevoando Porto Alegre sob grande expectativa da população para uma iminente queda do avião. A equipe da Gaúcha consegue, então, captar os diálogos entre a tripulação e a torre do Aeroporto Salgado Filho, passando a transmitir, utilizando este recurso, todas as operações até o pouso de emergência. Debate esportivo como na atualidade ou de caráter jornalístico amplo como no passado, o Sala de Redação vai ser uma das marcas da Gaúcha a impulsioná-la, levando a emissora à liderança no radiojornalismo no Rio Grande do Sul.


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