A arte encantadora das ruas de Florianópolis

Publicado em: 20/01/2008

Olá caros leitores, voltei de férias e, por favor, me imaginem daí dando aquela gostosa espreguiçada. Tive muito tempo para pôr em prática o mais curioso dos hobbies, ao qual me dedico: a arte de flanar.
Por Marilange Nonnenmacher

Como disse João do Rio: “eu amo a rua”. É nesse burburinho incansável e exagerado onde todos nós podemos nos sentir meio “irmãos, parecidos e iguais”. A rua é um fator de vida das cidades, e, elas possuem suas almas, sua personalidade, sua singularidade, características essas sobre as quais já tocamos em momentos anteriores, quando me referi à Rua Conselheiro Mafra.


Performance apresentada pela Mari na Rua Felipe Schmidt
no centro de Florianópolis em 15/05/2004.
Foto: Marilange Nonnenmacher

As ruas são sulcos abertos dentro da textura da cidade onde nos deparamos, principalmente nas estações quentes, esparramadas em suas beiras, com várias manifestações artísticas. São grupos musicais, exposição de quadros, artesanatos, cantores, atores, violeiros, vendedores falantes e cantantes, performistas, malabaristas, saltimbancos, enfim, todos atuando para o deslumbre de nossas almas, para aqueles que encontram um tempo para admirá-los.   

Ontem, me deparei em plena Felipe Schmidt com um Deus Grego, o Atlas, aquele da mitologia grega que foi condenado por Zeus a sustentar as colunas do céu. A performance e o figurino da estátua viva eram primorosos, tanto que resolvi parar e depositar meu quinhão para apreciá-lo demoradamente. Mas, naquele momento, estava sem uma máquina fotográfica para registrar o espetáculo para lhes mostrar. Resolvi então, buscar nos meus arquivos a imagem acima que também havia me chamado à atenção, mas já há alguns anos, em 2004. 

Como cheguei ousada das férias, vou citando e parafraseando, e desta vez é Bertolt Brecht: “vocês, artistas que fazem teatro em grandes casas, sob a luz de sóis postiços, ante a platéia em silêncio, observem de vez em quando esse teatro que tem na rua seu palco: cotidiano, multifário, inglório, mas tão vívido e terrestre, feito da vida em comum dos homens – esse teatro que tem na rua o seu palco”.

As ruas nessa época primorosa repleta de atrativos transformam-se num palco para a atuação de artistas vários e de todas as tendências. A arte teatral, por exemplo, enleva platéias inteiras quando num palco. No entanto, a arte do representar independente da indumentária, dos equipamentos modernos e avançados tecnicamente, enfeitados com tecidos luxuosos, ou, simplesmente, desenvolvidos sobre um caixote em meio às praças e ruas também nos enlevam. Em meio à febre da cidade, atualmente os performistas que representam as “estátuas vivas” dos tipos mais variados, têm me despertado a curiosidade.

Quem ainda não parou para espiar uma peça representada ao relento, ou mesmo parou durante alguns minutos para contemplar os atores que representam estátuas sobre caixotes no meio dos calçadões? Então o façam! Geralmente estão adornados, pintados de dourado, bronze ou branco, sei lá, representando um tema ou um personagem. Ficam lá, incansáveis guerreiros durante horas, com o olhar fixo num horizonte abstrato, esperando o acolhimento de uma moeda ou outra no cesto depositado aos seus pés, para pôr sua performance em prática. 

Neste ínterim, a curiosidade infantil supera os atropelos humanos e, de repente, uma criança mais interessada que temerosa pára e puxa pela mãe! Essa lhe dá uma moeda para colocar no repositório aos pés da estátua e despertar-lhe os movimentos. Mas a criança receosa da aproximação com aquele ser estranho, todo cinza, enigmático se esquiva. A mãe dá prosseguimento ao ato, pois, afinal, carece continuar seu trajeto. Faz o depósito das moedas no cesto para que a filha vislumbrasse os movimentos da estátua, até então sem nenhuma vivacidade.

Num repente, por meio de movimentos corporais em direção à menina curiosa, a estátua sai do lúdico infantil e agradece, comove a platéia com uma demonstração de gratidão, de paixão, de sonhos… São apenas alguns movimentos…lentos, precisos, mas que podem exprimir sentimentos contundentes, capazes de tocar a inocência infantil e também daqueles adultos mais receptivos. Movimentos que parecem jogar vida em nós seres muitas vezes inertes, intocáveis. Tô empolgada! Por isso, devo continuar num próximo momento a tagarelar mais sobre as ruas ingênuas, sombrias, malandras, delicadas e trágicas de Florianópolis. 

Concluindo, é nesse tecido urbano mutável que assume fisionomias distintas rapidamente que devemos estar atentos às belezas efêmeras e fugidias. Como na cena onde a inocência da menina que ainda não está corrompida pela brevidade dos tempos modernos, consegue captar o diferente e o admira e questiona. E salve, salve a rua!

 


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1 responder
  1. Osvaldo Ferreira says:

    Marilange, só sei que quando quero um lazer literário, visito Caros Amigos. Mas só tenho olhar para você. Abraços.

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