A bela com o casaco de bruma

Publicado em: 13/11/2013

A Cidade Maravilhosa fica belíssima ao sol. É como uma linda carioca quando exibe suas curvas sensuais mal cobertas por um biquíni minúsculo.

Mas nossa cidade fica igualmente bela nestes dias de outono, quando se veste com seu casaco de bruma.

A constante luz solar que doura a pele, aquece o corpo e encanta nossas retinas dá lugar a uma cerração que cobre tudo, conferindo à cidade um quê de mistério, envolvendo-a numa espécie de fogo tropical.

Desde a aurora, a cidade aparece vestida de névoa e, aos poucos, enquanto a manhã avança, a bela vai deixando cair lentamente as dobras e dobras de seu casaco de bruma.

Nesse sensual strep-tease, vão surgindo então, pouco a pouco, lentamente, os contornos da cidade em sua eterna beleza.
Então, o corpo de cidade bela que tanto conhecemos vai se mostrando. No horizonte, as águas verde-azuladas aparecem devagarzinho, deixando ver, lentamente, o encontro entre céu e mar.

Aos poucos, vêem-se aqui e ali nesgas de areia dourada de praias sendo acariciadas pela espuma branca. Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra, todas as praias da Baía de Guanabara e da orla inteira vão se mostrando, com uma languidez própria da mulher sedutora.

A Lagoa surge, bela como sempre, do meio da névoa, revelando-se também as centenas de caminhantes matutinos, nesta época do ano fazendo, agasalhados, seu exercício matutino.

Os morros, como o Cara de Cão, o Dois Irmãos, e o maciço revestido pela Floresta da Tijuca, surgem aos pouquinhos por entre as dobras do casaco de bruma.

Os pilares da ponte Rio-Niterói parecem flutuar no meio da névoa, enquanto as barcas e os navios lançam seus sons guturais, que nos lembram a histórias de navios fantasmas.

Os raios de sol, insistentes, vão vencendo a resistência fingida da bela sensual, e aos poucos conseguem atravessar a neblina espessa com suas setas de luz, ajudando a revelar o corpo da cidade.

Os prédios do centro da cidade, primeiro os mais altos, depois todos os outros, vão aparecendo; nas superfícies envidraçadas de grandes edifícios surgem pontos de luz como reflexos do sol matutino.

A manhã, determinada, avança, e a bruma cede com relutância aparente, como a bela mulher que se despe ante um olhar apaixonado.

Mesmo o transtorno causado nos aeroportos entra nesse clima de beleza outonal. Os aviões – pássaros de prata – ficam pousados, esperando o capricho da bruma que se esvai, enquanto vão mostrando sua fuselagem de aço aos poucos iluminada pelo sol que surge. Nos saguões, passageiros dividem-se entre o mau humor de não poder embarcar no horário e olhares encantados através das vidraças para contemplar a cidade que se despe da bruma.

As primeiras horas da manhã se esgotam; com elas se vai o casaco de bruma que a cidade vestia. Os últimos tufos esbranquiçados de névoa ainda resistem, sobre o mar, por cima das montanhas, sobre os edifícios. Mas estes também desaparecem, revelando as douradas e sensuais curvas de nossa bela cidade, que é linda e maravilhosa, mesmo quando caprichosamente resolve nos surpreender e seduzir, vestindo e depois despindo seu casaco de bruma.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *