A bela e o palavrão

Publicado em: 07/11/2012

Ontem, em minha caminhada ao longo da praia, emparelhei com um grupo de mocinhas. Todas bonitas, mas uma se destacava por ter aquela beleza radiosa, primaveril, aquele ar de quem foi escolhida para refletir a própria beleza da manhã. Pois foi esta quem me chocou. Explico. Não sou pudico nem muito menos moralista. O que a tal mocinha agrediu em mim talvez tenha sido mais o senso estético do que as convicções morais: daqueles lábios lindos, movendo-se num rostinho encantador, saía uma torrente de palavrões. Cada frase da linda moça era pontuada com vírgulas, pontos e exclamações feitas com o baixo calão; mas algumas palavras obscenas sequer se encaixavam na construção de seu discurso, que me pareceu ser sobre paqueras e “ficares”.

Sou dos que defendem ardorosamente a absoluta igualdade entre os sexos, que aliás existe de fato quer a defendamos ou não. Vejo, satisfeito, o machismo corroer-se até sua morte completa e merecida; observo, no mercado de trabalho, as mulheres avançando, conquistando e dominando atividades na base de inequívoca competência; e as encontro, lúcidas, altaneiras e combativas, no campo da política, na seara das religiões e, igualmente, no escorregadio, para homens e mulheres, espaço vital da sexualidade.

Mas essa igualdade com certeza não passa pelo mimetismo do que há de mais grosseiro nos homens, inclusive o linguajar apoiado nos palavrões.

O palavrão, evidentemente, tem seu lugar na comunicação humana. Afinal, trata-se de uma ênfase discursiva insubstituível, em certas circunstâncias e dependendo de quem discute.  Para esses, na agudez contundente de uma discussão, não há como agredir com eficácia senão mandando alguém para aquele lugar…

Talvez nem seja preciso lembrar, por exemplo, quanto valem os palavrões bem posicionados na literatura ou no teatro. Neste, é impossível deixar de lembrar Nelson Rodrigues, que aliás sempre se confessou um pudico, um retrógrado, um reacionário, em política ou em costumes – ele mesmo não usando palavrões em seu dia-a-dia. Mas observem que as personagens femininas do genial autor de “Vestido de Noiva” jamais falam um palavrão gratuitamente, nunca pronunciam termos chulos sem que estes sirvam à força dramática e poética dos textos. Pelo menos quando as encenações de Nelson guardam fidelidade a Nelson.

Os homens, esses seres que contêm tanto de truculência quanto de fragilidade, lançam mão, a torto e a direito, dos palavrões, que são uma espécie de tacape verbal tentando substituir, com sua força agressiva, os argumentos de convencimento, quando estes lhes parecem fracos e ineficazes.

Longe de mim considerar as mulheres seres frágeis, visceralmente românticos e inapelavelmente condenados a uma “proteção” por parte dos homens. Não. Em verdade, tenho a certeza de que nós, os homens, é que precisamos desesperadamente de sua fortaleza, ainda quando nossa fraqueza nos leva a agredi-las… inclusive com palavrões.

Voltando à bela mocinha, pergunto-me então o porque da necessidade do uso de palavrões. Sei bem que jovens, homens e mulheres, mergulhados em seu compósito de perplexidades, dúvidas, necessidade de auto-afirmação, inseguranças e blefes em relação a um mundo que no fundo os assusta, precisam da contestação, de certo nível de agressão e de boa dose de inconformação, inclusive na expressão verbal. Mas será que vale a pena a mocinha, tão bela e tão simpática, recorrer a termos tão chulos?

Não combinavam, positivamente não combinavam, a suavidade dos traços de um belo rosto, a beleza da boca quase juvenil, os olhos brilhantes, talvez com brilho de paixão, os gestos suaves, os cabelos castanhos ondulados, a sinuosidade das curvas do corpo, com a contundência, a agressividade e a pobreza vocabular contidas nos palavrões.

A língua portuguesa, nossa “última flor do Lácio”, está repleta de palavras cuja potência de agressividade suplantam as dos palavrões. Há muitos termos que humilham, ridicularizam e ferem até ao fundo d’alma; que encurralam na discussão; que permitem vencer, sem contestação, qualquer duelo verbal. Tudo isto sem recorrer ao baixo calão.

Tenho esperança de que, ao invés de se renderem à facilidade dos palavrões,  as meninas, mocinhas e mulheres em geral, resistam. Torço para que façam disso uma profissão de fé na condição feminina, deixando aos machos de boca suja a miséria de seu palavreado impublicável.

Mantenho-me esperançoso também de que os homens acabem aprendendo, com as próprias mulheres, a suavidade da linguagem, a poesia da fala mansa embora firme, correta mas contundente. A beleza, enfim, do falar sem palavrões, deixando que a magia da palavra certa, justa e discursivamente eficaz flua nos diálogos, argumentando sem ferir, convencendo sem agredir.

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