A Cartomante

Publicado em: 22/02/2006

Induzido pela crença feminina, deixei o preconceito de lado e discretamente decidi visitar uma cartomante para descobrir o que os desígnios me reservam. Nunca imaginei que faria isso.
Por Léo Saballa

Mas, fui e pronto. Lá estava eu, com olhar assustado, numa sala esotérica, envolto pela fumaça do incenso sufocante. Diante de mim uma mulher sexagenária vestida com roupas de seda colorida, num modelito cigano. Se a iluminação fosse melhor poderíamos até jogar canastra. Mãe Cambará embaralhava demoradamente as cartas de tarô enquanto me examinava por trás dos óculos fundo de garrafa. As lentes deformavam o seu globo ocular, deixando-os enormes.
– O que te aflige, meu filho? – A voz rouca da mulher se impôs como uma acusação.
– A cartomante é a senhora. Por que não me diz? – Provoquei.
Sem desviar os seus grandes olhos dos meus, a mulher parou de embaralhar as cartas e mostrou-me uma. O retângulo de papelão exibia o desenho de um homem de cabeça para baixo, suspenso por um pé. Estava preso por uma corda numa viga apoiada entre duas árvores. Cada árvore com seis ramos cortados. O rosto enrugado de Mãe Cambará ficou apreensivo e antes que eu perguntasse se era uma carta boa ou ruim, ela se antecipou:
– É o enforcado – sussurrou, como se estivesse me revelando algo terrível, devastador.
Logo associei aquela carta ao meu excessivo impulso de endividamento. Ao começar a falar das dificuldades financeiras, ela fez um gesto brusco com a mão para que eu me calasse.
– Arcano doze, O Enforcado. No sentido material, uma das piores cartas do tarô. Indica que você tomou uma direção errada. – Descreveu com a voz trêmula.
– Como assim? – Arrisquei perguntar.
– Falta de sentido prático, projeto irrealizável, falta de determinação, ilusões, indecisão, incapacidade para agir no mundo concreto, desejos generosos, mas estéreis.
– Puxa, eu não me vejo assim…
Novamente gesticulou com as mãos e mandou-me calar.
– Arcano quinze, O Diabo. – Disse, virando outra carta e observando atentamente a minha reação. Foi quando tive a oportunidade de falar:
– Seguinte, Mãe Cambará, estou aqui para levantar o meu astral e não para ser enforcado ou satanizado por arcanos revoltados. Pago a consulta em dobro, mas, acenda a luz, embaralhe isso de novo, deixe de fora o que não presta e vamos recomeçar com previsões otimistas. Tudo com muita alegria.
No creio em las brujas, mas que elas hay, elas hay.


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