A cidade e seus governantes

Publicado em: 06/10/2012

A proposta de atualizar Florianópolis não é nova e apela, sem constrangimento, para a substituição dos edifícios históricos e da apropriação da paisagem como solução para as demandas e problemas da cidade. O Miramar é o nosso exemplo mais triste, mas, infelizmente não é único. “É preciso aproveitar que a cidade está na moda” dizem uns, “Florianópolis precisa crescer” evocam outros, mal disfarçando a ideia de que é preciso corrigir a cidade – como se houvesse algo errado com ela. O resultado é que Florianópolis se transformou no paraíso das empreiteiras, parceiras generosas na República-Do-Toma-Lá-Dá-Cá em que se transformou o Brasil.

Na prática, essa conduta costuma ser desastrosa para a Memória e para o meio ambiente como mostram os desmatamentos e invasões de APPs praticadas tanto por abonados quanto por desvalidos. Assim como os incêndios misteriosos e demolições de prédios e casas antigas que vêm ocorrendo em Florianópolis e região, providencialmente ocorridos à noite ou em finais de semana prolongados, muitas vezes com autorização/conivência daqueles que deviam protegê-las, diga-se de passagem. Traduzindo: aqui não tombamos, deixamos que tombem, se é que me entendes.

Precisamos re-pensar as cidades com mentes e corações abertos para enxergá-las de um modo mais amoroso e mais inteligente. Precisamos oferecer recompensa, incentivo real aos proprietários de imóveis que tenham valor histórico ou afetivo para a cidade. Precisamos, sobretudo, ampliar o conceito de “progresso” abandonando a visão tacanha baseada em premissas excludentes como ou progresso ou memória ou paisagem e avançar para modelos virtuosos que conjugam progresso e memória e paisagem.

Creio que as cidades precisam de gestores visionários e empreendedores, não do gênero “mestre de obras” tão ao gosto dos nossos homens públicos ávidos por empilhar tijolos onde possam inscrever seus nomes em obras de utilidade muitas vezes duvidosa. Mais que gerentes, prefeitos e também vereadores, devem ser cuidadores da cidade. No que toca à Florianópolis, só nos resta bradar: Valei-nos Senhor dos Passos! Valei-nos, Velho Franklin.

2 respostas
  1. Maria Isabel de Castro Lima says:

    Concordo. Infelizmente a sede de dinheiro e poder nunca aprendeu com a História. A Europa preservou seus monumentos, e recuperou os perdidos nas guerras, porque descobriu neles a fonte de renda incrível que era. Hoje, milhões de pessoas gastam seu dinheiro “vivendo” o passado por alguns momentos naquelas belíssimas construções. Aqui, em vez de haver incentivo para que se preserve e se use o antigo belo não apenas como bela arquitetura, mas também como história, as leis “punem” os proprietários, penalizando-os com a impossibilidade de reformar e cuidar desse patrinômio sem que se gastem décadas de pedidos de apoio financeiro, além das burrocracias todas mais. Arquitetos, engenheiros, restauradores…etc, custam caro e ninguém tem do bolso para isso. De maneira que, como fez Matarazzo em São Paulo, passa-se o trator por cima de tudo antes que a lei chegue….uma pena!!!

  2. Norma Bruno says:

    Antes de tudo, vejo o patrimônio como guardião da nossa identidade. Triste é ver o brasileiro voltar do exterior maravilhado com os museus, com as cidades históricas, com a preservação de cidades milenares.

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