A coisa vai de mal a pior

Publicado em: 16/06/2014

[Publicado originalmente em 27/7/1999]

Esta é uma daquelas horas em que não devemos ter medo de parecer velhos, de falar coisas que só os macróbios ousariam e resmungar com a ranzinice que a idade exige: tem dias em que a televisão não tem nada que preste. O sábado é um desses dias, mas há outros, que se alternam como jogadores de vôlei, com o único objetivo de encher, com o perdão da palavra, o nosso… paciência.

Não faz muito tempo estava eu no alto do telhado de casa instalando uma enorme antena, complicada como uma teia de aranha, para tentar pegar algum canal em VHF. Ah, era uma maravilha. À noite, se o tempo estivesse bom e o vento favorável, conseguíamos pegar a TV Rio, com musicais e comédias, a TV Record, de São Paulo, com séries e programas de variedades e uma emissora do Paraná que tinhas novelas feitas lá mesmo, com aquele simpático sotaque de “leite quente dói o dente, os da frente, principalmente”.

Se o vento mudava, era só mudar também a direção da antena e lá estávamos nós tentando adivinhar, entre chuviscos e idas e vindas do som, as imagens da TV Piratini, de Porto Alegre. Ela também com uma programação regional cheia de altos de baixos como toda programação de televisão, mas regional. Era um tempo em que a televisão tinha vários sotaques e era feita por gente que morava nas redondezas.

Depois disso a televisão evoluiu muito: a Embratel colocou a mesma imagem e o mesmo som, ao mesmo tempo, em todo o País.
Na mesma hora todos estávamos vendo o mesmo programa, geralmente produzido no Rio de Janeiro e em uníssono começamos a repetir os esses chiados das praias cariocas, de norte a sul. Como se este não fosse um Brasil de enorme variedade cultural e de espantosa extensão territorial. Mas, aleluia, a imagem não tinha mais tanto chuvisco.

E há menos tempo ainda estava às voltas com um cabo coaxial, fazendo a conexão do vídeo da sala com o TV do quarto para não pagar um ponto de recepção a mais. A um toque de dedos, o humor árabe da TV Dubai, o Tonecas e sua escolinha da RTP (pronuncia-se iérretepê), os animados programas de auditório da RAI, as fofocas mundanas no Corazón, Corazón (sem falar no Tendido Cero, a resenha dominical das corridas de toros) da TV espanhola e tantas outras atrações internacionais para qualqier tipo de gosto. Maravilha das maravilhas, sem ter que brigar com a antena, imagem e som perfeitos, alguns canais em estéreo, outros com SAP.

Hoje temos em casa dezenas de canais. Mas não se pode dizer que temos uma televisão muito melhor à nossa disposição. Tem dias em que a televisão não tem nada que preste.

Eu avisei, no primeiro parágrafo, que estes seriam resmungos mal-humorados de um sujeito irritado. Principalmente porque estou escrevendo ainda em estado de choque, poucos minutos depois de ter assistido, incrédulo, pasmo e boquiaberto, à estréia do Zorra Total, na TV Globo.

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