A comunicação imposta

Publicado em: 30/05/2013

Durante algum tempo da minha vida, tive como hobby a radioescuta. Em um breve resumo, a atividade consiste em sintonizar emissoras distantes – através de aparelhos de rádio e antenas, nada de internet – para em seguida reportar a essas emissoras as condições de recepção. Como “troféu”, algumas empresas reportadas enviam cartões (chamados de QSL’s) confirmando a escuta. Quanto mais difícil de sintonizar a estação, mais raro e valioso é o respectivo QSL.

Em função do passatempo, tive contato com aficionados por rádio no mundo inteiro. Invariavelmente, ao saber que eu era brasileiro, eles me pediam informações acerca dessa tal Voz do Brasil, que diariamente invadia o dial das emissões tupiniquins, provocando pânico entre os radioescutas. Ora, como identificar uma emissora se todas estão transmitindo exatamente a mesma coisa, sem qualquer menção ao seu nome ou prefixo? Uma hora depois, ao final do programa, era possível que o sinal não estivesse mais inteligível, característica comum nas emissões de ondas médias e curtas.

A todos, eu respondia que também não entendia direito como essa “tradição” ainda se mantinha. A Voz do Brasil, criada durante o governo de Getúlio Vargas para divulgar ideias governistas – e, claro, atrair a simpatia do público para elas -, há muito deixou de fazer sentido, mormente em um país que se propala um “estado democrático de direito” como é afirmado já no primeiro artigo do texto constitucional.

Depois de tantas conquistas relativas a liberdades de toda sorte, é inadmissível que a estrutura radiofônica do país simplesmente pare diariamente, por uma hora, para transmitir as informações produzidas pelo governo. É claro que, atualmente, a Voz do Brasil não carrega o tom soturno e impositivo dos anos de chumbo, mas ainda assim seu conteúdo continua sendo imposto aos ouvintes, que não possuem alternativa.

De acordo com a Empresa Brasil de Comunicação, responsável pela produção e veiculação do programa, a “Voz” tem por objetivo “levar informação aos cidadãos dos mais distantes pontos do país”. Balela. Se querem levar informação, façam o programa e transmitam pelas emissoras oficiais do governo. Vão além, deixando à disposição para as emissoras privadas que também queiram fazê-lo. Mas deixem o “cidadão dos pontos mais distantes do país” decidir se quer ouvi-la ou não. Impor informação é apenas ditadura mascarada.

Quer ouvir a transmissão do jogo do seu time, que começou às 19h30? Volte depois dos 30 minutos de jogo. Informações sobre o trânsito da sua cidade bem na hora do rush? Desculpe, só mais tarde, quando talvez nem sejam mais tão necessárias. Aquele programa musical que tanto gosta? Apenas pela internet.

Chega a ser incompreensível que nos dias atuais situações desse tipo ainda perdurem no Brasil. E pior, quando se fala em mudança é tão somente sobre uma “flexibilização” no horário de transmissão do programa. Ainda seria obrigatório, mas a emissora poderia “escolher” colocá-lo no ar em algum momento entre 19 e 21 horas.

No formato atual, a Voz do Brasil se presta tão somente a fazer propaganda política, com maior ênfase na parte dedicada ao Poder Legislativo. É um “horário eleitoral gratuito” diário, este também uma imposição que não se pode mais conceber. E dá-lhe propagandas amadoras, chatas e repetitivas inundando o horário nobre das emissoras todos os dias. Até quando?

Cada vez mais, comunicação imposta é um mal que precisa ser extirpado da nossa realidade. Que as pessoas possam escolher o que desejam ouvir/assistir, dentre as milhares de opções que lhes são oferecidas. Simples assim, basta um pouquinho de vontade para colocar em prática. Ah, eu disse “um pouquinho de vontade”? Melhor esperarmos sentados. E os radioescutas do mundo inteiro que se virem para identificar as emissoras brasileiras entre 19 e 20 horas.

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