A desvalorização da memória

Publicado em: 29/07/2012

Houve um tempo em que os objetos eram substituídos exclusivamente por motivo de perda, quebra ou exaustão do material. A Revolução Industrial, no entanto, inventou uma nova “maneira de fazer as coisas”. Esse novo modus operandi promove a obsolecência intencional dos produtos obedecendo a lógica de mercado cuja ordem é propiciar, continuadamente, a realização de novos negócios. Daí que acabamos nos acostumando à “durabilidade” relativa dos produtos e à “necessidade” de sua substituição por um exemplar novo e mais moderno ainda que o anterior esteja em perfeito estado e em pleno funcionamento. Vivemos num mundo de coisas transitórias.

Considere-se ainda o efeito das novas tecnologias da informação que permitem trocas e traslados em tempo mínimo e a influência da publicidade que uniformiza os idiomas, os produtos e as paisagens direcionando nossas preferências e aversões. Como resultado dessa massificação que despersonaliza as pessoas e os lugares, tudo o que é antigo passa a ser visto como desatualizado, atrasado, inadequado e inapropriado, portanto passível de substituição. Termina que, hoje, todos os lugares se parecem.

A noção de globalização traz implícita a desvalorização da Memória. Há, entre ambas, pode-se dizer, uma certa incompatibilidade conceitual que coloca em contradição o velho e o novo, o antigo e o moderno, o local e o global. Some-se a isso o fato de que, em geral, construções e prédios antigos estão localizados nos núcleos de fundação das cidades e suas cercanias, espaços mega valorizados no mercado imobiliário e, portanto, cobiçados pela indústria da construção civil.

A ideologia da renovação e da mudança se traduz, na área da Cultura, em desvalorização do já existente, do que é antigo e do que é local, legitimando a substituição dos equipamentos no espaço urbano. Uma mentalidade particularmente danosa aos edifícios históricos; um campo fértil para o discurso desenvolvimentista.

“Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles”.  Calvino

Leitura de referência para este artigo: Adams, Betina – Preservação Urbana: gestão e resgate de uma história. Florianópolis. Editora da UFSC, 2002.

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