A difícil arte de fazer rádio

Publicado em: 16/02/2005

Eu dirigia uma emissora de rádio no interior do Estado de S. Paulo e não me conformava com aquela sucessão de falta de imaginação.
Por Elóy Simões*, de Florianópolis

Criei, então, o programa Semana Que Vem é Outro, um espaço radiofônico onde a cada semana um locutor teria o direito de criar o programa que bem entendesse.

Fiquei decepcionado: não aconteceu nada de novo.

2. Semana passada participei, na qualidade de Coordenador do Curso de Comunicação Social da Unisul e representando o Sistema Acafe, do júri do Prêmio Acaert de Rádio e Televisão, categoria profissionais.

Fiquei triste: o que vi foi uma sucessão de lugares comuns. Profissionais de rádio imitando uns aos outros. Todos, o estilo usado em outros centros.

Pessoal de FM falando do mesmo jeito. Narradores esportivos se repetindo, em uma narração que não se renova desde os tempos de Osmar Santos. Repórteres falando do mesmo jeito. Locutores de programas sertanejos discorrendo como se apresentassem um programa igual aos outros.

O que distingue uns dos demais? O timbre da voz, a clareza com que dizem o texto. Só.

3. Eu não devia me surpreender.

Porque sou um apaixonado pelo rádio, costumo corujar emissoras cada vez que viajo de carro ou fico em hotel por este Brasil afora. E me decepciono. O telefone, por exemplo, cuja combinação com o rádio foi descoberta pelo Enzo de Almeida Passos nos idos de setenta com o programa Telefone Pedindo Bis, que apresentava na rádio Bandeirantes, continua sendo uma ferramenta intensamente utilizada. Até o jeito de apresentar programas religiosos se repete.

Os radialistas se tornaram escravos da tecnologia. Esqueceram de inverter o processo: primeiro, pensar; segundo, criar; terceiro, usar.

Uma pena.

4. O duro, nessa história toda, é que se traga de uma praga que parece ter tomado conta das Universidades e Faculdades. Ouça, por exemplo, a rádio da Udesc. Você percorre o dial, chega lá, e tem a impressão de que está ouvindo uma emissora comercial como outra qualquer. Como as outras, atende ouvintes. Como as outras, esqueceu-se de que música tem autor e simplesmente o ignora. Etc etc etc, com uma desvantagem: a qualidade é pior.

5. Tem conserto?

Eu acho que tem. Primeiro, através do próprio Prêmio Acaert, a cujos organizadores sugiro a criação da categoria Originalidade. Ou Criatividade.

Uma categoria destinada a premiar profissionais e programas realmente diferenciados.

Segundo, Faculdades e Universidades. Penso que chegou a hora de elas e respectivos professores começarem a estimular os alunos a realizarem os nobres exercícios da criatividade e da experimentação no rádio.

6. Eu sei que não é tarefa fácil (desculpe o fa-fa). O momento atual, de cultura tipicamente visual, dificulta muito. Mas vale a pena tentar.

Quem sabe tentando conseguiremos devolver ao rádio o brilhantismo de outras épocas, quando programas criativos, surpreendentes, encantavam a todos e orgulhavam as emissoras e seus autores. 

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