A emoção pelas ondas do rádio

Publicado em: 18/01/2006

Anna Verônica Mautner

Estou torcendo para a novela de rádio voltar e nos trazer de volta o uso da mão e do olho para criar, transformar, em resumo, para que possamos voltar a fazer enquanto podemos continuar a sonhar. Quando eu era pequena, fazia muito esforço e prestava muita atenção para entender o mundo das “gentes grandes”. Percebia que os adultos eram bem diferentes das crianças. Eles falavam de guerra, banco, dinheiro, duplicata, despejo e tudo o mais que estava na órbita das necessidades e trocas materiais. Sobre sentimentos e emoções, os adultos de então pouco se manifestavam e, quando o faziam, era tudo sem palavras, por gestos e olhares. Talvez entre si eles falassem, desde que longe das crianças. Mas nós tínhamos vias por onde as emoções dos adultos nos chegavam: era pelo rádio.
Chegou a mim, há poucos dias, a notícia de que as radionovelas vão voltar, e isso me inspirou alguns pensamentos e lembranças que vou contar a vocês, evocando tardes de 60 anos atrás. Cada novela tinha sua música e, se eu bem me lembro, eram predominantemente orquestrais, o que não foi para mim uma má introdução, lenta, é bem verdade, para o universo da música clássica. E não só, mas especialmente para a trama emocional da vida adulta. Aí sim, na radionovela, conseguíamos perceber o que havia atrás dos rostos sérios e compenetrados dos familiares, vizinhos e mestres, tudo gente grande.

Colocado desta forma, poderia parecer que vivíamos uma vida hipócrita, mas não era, não. Havia, é verdade, muito mais contenção, tolerância à angústia, tudo isso em nome do respeito ao outro, especialmente à mente pura de nós, crianças. Nossas cabecinhas eram vistas como frágeis, o que não chega a ser mentira, nem hoje.

As emoções que nos chegavam pelas ondas do rádio, nós sabíamos que era ficção, e aceitávamos de bom grado esse faz-de-conta. Enquanto isso, os adultos preservavam-se. Lembro-me de que a troca de olhar dos adultos era freqüentemente muito expressiva, para dar a entender que certas coisas “não eram para ser ditas na frente das crianças”. A gente sabia disso e não reclamava. Inveja, ciúme, saudade, dores de ruptura existiam, mas não éramos informados sobre isso.

A radionovela nos esclarecia sobre o que era vivido, o que acontecia naturalmente no mundo dos adultos. Nós éramos, até um certo ponto, preservados disso tudo. Sobre radionovela, não me lembro que existisse censura. A confiança da família parecia ser total sobre o que ia ser apresentado nas rádios. Ninguém se preocupava em desligar o rádio em certos momentos. Talvez alguns programas cômicos, que só passavam tarde da noite, não fossem para crianças, mas elas já estavam dormindo. Avós, mães e filhas acompanhavam as novelas sempre juntas. Os meninos ficavam de longe, mas não deixavam de saber o teor das narrativas. A radionovela fazia parte do mundo feminino. Era o mundo visto pela ótica das mulheres e apresentado sempre à tarde.

Parece que pensam em trazer de volta esta maravilha da minha infância, e vou tentar explicar por que acho a notícia tão maravilhosa. Porque, enquanto se escuta, continua-se a fazer. Enquanto se escuta, tricota-se, lava-se o cabelo, trata-se da pele, faz-se mãos e pés. Era em volta do rádio que aprendíamos essas artes do feminino. Uma geração aprendia com a outra. As mais velhas passavam para as mais novas tudo sobre o cuidado do corpo, da roupa, da limpeza e da feitura dos alimentos. Por observação e imitação, a sabedoria era passada adiante, sem ordem expressa e sem receita. Compartilhava-se enquanto se tricotava, se crocheteava, bordava, cerzia, e o rádio continuava descrevendo as emoções não expressas do cotidiano e, muitas vezes, também hábitos e costumes que não conhecíamos.

Estou torcendo para a novela de rádio voltar e nos trazer de volta o uso da mão e do olho para criar, transformar, em resumo, para que possamos voltar a fazer enquanto podemos continuar a sonhar.

Espero que a idéia vingue e o fazer junto retorne às nossas horas vagas. Além de fazer, enquanto o rádio toca e fala, uns podem montar quebra-cabeça, recortar, arrumar coleções. E, como algo a mais, ainda temos uma janela aberta para o universo emocional, onde os mitos podem ser revividos e, mais tarde, até criticados e execrados, se for o caso.
Enquanto sonhávamos, não parávamos de viver. Tão diferente do semi-autismo da nossa atitude diante da tela da televisão.

Anna Verônica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora). Email: [email protected]


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