A era do rádio em documento raro

Publicado em: 28/10/2004

Compilações recuperam canções da fase dourada de Carlos Galhardo, Emilinha Borba, Jamelão e Nelson Gonçalves.
Jornal do Brasil, Caderno B, 14 de outubro 2004.
Tárik de Souza

Emilinha 

Primeiro elo cultural da nacionalidade, a era do rádio que vicejou entre os anos 30 e 60 do século passado plantou ídolos duradouros, ao contrário do padrão descartável da midia atual. Quatro deles saem em compilações lançadas pelo selo curitibano Revivendo.

Carlos Galhardo (1913-1985) tem rebobinado o gênero que o notabilizou em O homem da valsa, com gravações de 1935 a 1947. Nelson Gonçalves (1919-1998), o ás do dó de peito, sucessor de Francisco Alves e de Orlando Silva em sua segunda fase, canta Noel Rosa e Herivelto Martins, numa seleção garimpada entre 1950 e 1956. A favorita da Marinha, Emilinha Borba, mostra suas múltiplas facetas de 1939 a 1954 em Se queres saber. E o intrépido Jamelão, hoje aos 91 anos, que alternou o rádio com gafieiras e a quadra da sua escola, também esgrime outros gêneros além do samba-enredo, o samba-canção e o partido alto, na seleta eclética de O eterno mangueirense, em gravações de 1949 a 1961.

Névoas de mistério pincelavam os sonhos dos ouvintes. Por esse motivo, assim como não se consegue precisar a idade de Emilia Savana da Silva Borba, a Emilinha, nascida numa casa ao pé do morro da Mangueira (em 1923, segundo a Enciclopédia da música brasileira, da Art Editora), poucos souberam o verdadeiro nome e local de nascimento do pé-de-valsa Carlos Galhardo. Filho de italianos, Catello Carlos Guagliardi era natural de Buenos Aires, Argentina, e escondia o fato com medo de uma rejeição do público brasuca, um tanto implicante com os portenhos. Claro que isso nada alteraria o enorme êxito de seu timbre aveludado de leve empostação, a bordo de um tipo de valsa assimilada da vienense com ambientação exótica (Cortina de veludo, Mares da China, Torre de marfim), ou onírica (E o destino desfolhou, Lago azul, Meu sonho é só meu, Sonhos azuis, Junto de ti estou no céu).

Algumas letras falam de ”aurora boreal”, ”estiolar”, ”oceano marulhando” e rimam tic-tac com bric-a-brac. Mas entre os compositores há especialistas como Paulo Barbosa, José Maria de Abreu, Oswaldo Santiago, Newton Teixeira, Georges Moran (incluindo uma parceria com Manoel da Nóbrega, o criador do longevo humorístico A praça é nossa) até os versáteis Ataulfo Alves, Custódio Mesquita, Braguinha e Alberto Ribeiro.

Não menos variado é o cardápio de Emilinha e seus fornecedores, como o camaleão autoral Haroldo Barbosa, um dos pilares do sambalanço, capaz de mandar uma satírica Rumba em Jacarepaguá e dividir com Peterpan Tico tico na rumba, sob os eflúvios da orquestra cucaracha de Ruy Rey. No ramo latino, não faltam ainda as notórias versões de sucesso Escandalosa e Dez anos, e até um choro-rumba Vem cantar também. Discípula menos esfuziante de Carmem Miranda, Emilinha domou os auditórios traçando todas: baião (Cacimbão), samba-choro (Faça o mesmo, Vizinho do 57), samba-canção (Se queres saber, Os meus olhos são teus) e até um tipo de choro veloz (Infância), que quase a equipara em destreza à Ademilde Fonseca.

Gago na fala, Nelson Gonçalves era um cantor fluente, mas um tanto empostado para o coloquialismo de Noel Rosa (1910-1937), que divide a antologia com composições – algumas obscuras e por isso mais instigantes – de Herivelto Martins (1912-1992). O lado do poeta da Vila foi extraído de um LP de 1955 com clássicos como Último desejo, Com que roupa, Feitiço da Vila, Quando o samba acabou, Silêncio de um minuto, dotadas de gravações definitivas de Aracy de Almeida, Mário Reis e do próprio Noel. Mas há relevantes desempenhos de Nelson em Só pode ser você e Coração.

Já a ala de Herivelto cintila em temas fronteiriços ao derramemento brega em Transformação, Amigo Apogeu e Teu erro, ao lado de totens como Ave Maria no morro, Caminhemos, Ela me beijou e Pensando em ti.

A surpresa maior do pacote é o CD de Jamelão, que extrapola o título, O eterno mangueirense. Da verde-e-rosa, apenas a gravação original do hino Exaltação à Mangueira , de 1955, pelo Grupo de Mangueira, e o memorável Deixa de moda, de Padeirinho da Mangueira. O ponto forte da seleção é a diversidade. Do esquecido baião, Pirarucu, quase um jingle do ”bacalhau do Norte”, da dupla de ases Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, ao maracatu Pai Joaquim e à ranchera Sá Mariquinha e o calango A jibóia comeu, seu disco de estréia, em 1949, acompanhado pelo acordeon do co-autor, Antenógenes Silva.

Além de uma incursão de João Roberto Kelly, o compositor de marchinhas e sambalanços, na seara do samba-canção enfossado de Lupicínio Rodrigues (Mais do que amor), rola um Zé Keti memorável (Leviana), um baião marcha (Torei o pau) e dois hinos futebolísticos desconhecidos de Billy Blanco (Corinthians, campeão do centenário e Oração de um rubro-negro).

Mais inesperada ainda, Casinha da colina, embalada em samba orquestral, a despeito da assinatura da dupla do teatro de revista Pedro Sá Pereira e Luiz Peixoto, é a secular canção mexicana Casita de la sierra, gravada inicialmente por Vicente Celestino, acompanhado pelos violões de Francisco Alves e Rogério Guimarães em 1928. Assim como Jamelão não é só Mangueira, a era do rádio demoliu fronteiras estéticas e geográficas.

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