A estranha greve

Publicado em: 09/07/2008

A história do rádio no Brasil reserva muitas páginas para as grandes realizações e a revelação de extraordinários talentos, mas conserva um espaço espacial para casos pitorescos onde o bom humor do radialista se manifesta das mais diferentes formas. Até nos momentos mais difíceis de sua história predominou o bom humor.

Houve um tempo em que o faturamento das emissoras mal dava para cobrir os custos com funcionários e energia elétrica. Não foram poucos os casos de radialistas que permaneceram por mais de três meses sem receber seus salários. A penúria era geral; diretores e funcionários viviam contanto os trocados.

Os funcionários na sua maioria nem trocados tinham. Esse estado de miséria provocou alguns movimentos grevistas preocupantes na época. Na década de sessenta a Rádio Guairacá, uma das mais prestigiosas e antigas emissoras de Curitiba atrasou o salário de seus funcionários por mais de três meses. A ameaça de greve fez com que um diretor improvisasse uma fórmula para acalmar os ânimos e evitar a paralisação.

Foi feito acordo com um dos anunciantes mais tradicionais da emissora, Casas Lorusso, que vendia sapatos, onde a empresa pagaria parte da publicidade veiculada na rádio, com sapatos de vários modelos e números. Fechado o negócio o tesoureiro anunciou: os funcionários com salário em atraso (eram todos) tinham duas opções; aguardar mais alguns dias ou receber o atrasado em sapato. A maioria aceitou a segunda opção. Alguns funcionários venderam os sapatos recebidos para amigos e vizinhos, outros ficaram com um estoque de calçados em casa e a conta atrasada no armazém da esquina.

Na década de setenta a Rádio Colombo entrou em fase de grande dificuldade e os salários foram atrasados. O radialista Paulo César, uma das figuras mais expressivas da radiofonia local, indignado com a falta de pagamento dele e de seus colegas iniciou um movimento na emissora como indicativo de greve. A iniciativa do famoso locutor chegou aos ouvidos do diretor da rádio que não deu maior importância para o caso.

Paulo César decidiu colocar todos os colegas em greve a tirar a emissora do ar. Combinou que num determinado dia todos deveriam estar no estúdio da rádio, cerca de seis horas da tarde, momento em que o diretor-proprietário iniciava o programa Hora do Ângelus. Enquanto o dono da emissora rezava a Ave Maria, Paulo César entrou com seus colegas na sala de operação técnica onde através de um vidro via-se o chefão de cabeça baixa, olhos semicerrados, pensamento elevado aos céus, iniciando suas orações.

Paulo diante de todos arriou a calça e colou suas grandes e alvas nádegas no vidro e bem na altura do rosto do patrão. No mesmo momento um colega tirava do ar o transmissor. O resultado foi uma gargalhada imensa com a estranha greve. Ficou nisso; uma bunda muito branca no vidro do estúdio, um rosto vermelho de vergonha, a voz sumindo diante do microfone e alguns minutos fora do ar.

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