A Europa reage tarde

Publicado em: 26/05/2012

Isto é, reage um pouco tarde, mas isso não quer dizer que não tenha uma saída honrosa. Talvez tenha… Qual é a leitura que se faz do panorama sócio-político e econômico da Europa de antes, durante e depois do Euro? A verdade não assumida e nem dita com palavras claras é que a Europa capitulou para os agiotas. Os trabalhadores e os empresários foram derrotados pelos bancos e pela bolsa de valores. Bem igual ao que acontece aqui, em que quem trabalha e poupa é espoliado pelos bancos e pelas bolsas, tendo os governos por cúmplices. Chega um momento em que vaca pára de dar leite. O dono da vaca vende-a para o açougue e vai a procura de outra vaca, mas perde a vez aquele que trabalha (perde o emprego, reduz ganhos) e também não há mais leite para quem faz queijo, manteiga, nata (o mercado está em recessão).

Globaliza-se o capital e não se globaliza o trabalho.

Trabalhadores e empresários, apenas esses, são chamados a pagar a conta, enquanto o dono da vaca (o banqueiro, o mega investidor) parte para outra.

O sistema capitalista baseou-se no individualismo para firmar sua ideologia. Aquele que tiver a sapiência para ganhar o mais que puder, guarda, investe, multiplica, servindo-se do esforço de outros para ganhar ainda mais. Todos fazendo isso, aonde isso vai parar? Vai parar aonde já parou: uma parte já fez o que tinha que fazer e excluiu do sistema aqueles que não souberam fazer a sua parte. Por isso temos grandes fortunas cara-a-cara com grandes misérias. Por isso, temos países antes prósperos, à beira da falência. Mas, com certeza os falidos não serão os banqueiros.

Se olharmos para a vida veremos que nos sistemas vegetais e animais estão grandiosos exemplos inclusivos e não excludentes. A colméia de abelhas é, talvez, o melhor exemplo, que também é encontrado no formigueiro, mas como as abelhas nos servem e as formigas nos atrapalham, sempre iremos preferir ficar com o exemplo da colméia. Mas, os cardumes de peixes, os bandos de pássaros, as manadas de búfalos, a varas de porcos-do-mato e os coletivos de tantos outros bichos “não inteligentes” ensinam que solidariedade não faz mal a ninguém.

Mas, diz isso ao banqueiro diante do devedor sem recursos para devolver o empréstimo tomado a juros impagáveis?

Nas comunidades indígenas ao faltar alimentos os adultos aptos diminui-se 25% da ração num primeiro momento para todos, enquanto os guerreiros saem para arranjar comida. Persistindo a carência, os velhos reduzem mais 25% a ração. Persistindo a carência, os adultos aptos reduzem mais 50% a ração e assim sucessivamente, alcançando depois as mães em amamentação e muito depois as crianças. Ao chegar ao ponto de reduzir 25% a alimentação das crianças, os adultos aptos já estão com só 25% da ração, os velhos já estão com só 50%, o mesmo acontecendo com a mães. E esse é o ponto em que a assembléia comunal decide mudar-se de região.

Esses nativos sabiam, sabem, mais que o homem capitalista, mas foi, exatamente, o homem capitalista que avançou sobre suas terras, tomou-as para si, escravizou os índios pela força e impôs à América índia o seu modo europeu capitalista de conquista.

Eram tão sociais e comunitários os nativos que a experiência escravocrata não funcionou com eles. Retirados de sua aldeia e levados para os canaviais e lavouras, os varões adoeciam rapidamente. Causa: saudade, impossibilidade de viverem distantes de seus iguais. Essa realidade fez com que se trocasse o índio pelo negro e se estabelecessem as senzalas, onde havia o convívio dos iguais.

O que isso tem a ver o com o modelo capitalista? Tudo.

Nós começamos pensando individualistamente, fomos renunciando o espírito comunitário, fomos substituindo a solidariedade pela caridade e assim a corrida tecnológica, hoje, nos impõem viver perto, porém distantes de nossos familiares, dependurados nos computadores, nas tevês, nos leptops, nos celulares, nos iPods, iPads, tablets e outros maravilhosos inventos que, cada dia mais tiram nosso dinheiro e nos devolvem solidão.

Veja como estão os conglomerados residenciais urbanos: os vizinhos de porta não se conhecem, não trocam experiências, não se apóiam, não se ajudam, como se apoiavam e se ajudavam os vizinhos rurais de outros tempos.

Os problemas da comunidade, hoje, são resolvidos por terceiros porque os personagens centrais se negam participar, discutir, sugerir, ajudar. Pagam para não se incomodar. São totalmente anti-sociais, talvez solidários, mas contribuem para instituições de caridade por pura descarga de consciência. Haveriam muitos outros exemplos, se quiséssemos prosseguir…

Esse modelo de sociedade e esse modelo de economia estão furados, precisam ser substituídos. Temos aí, talvez, mil anos para fazer isso, mas eu e você precisamos fazer isso desde agora.

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