A extinção dos dinossauros

Publicado em: 08/06/2012

Fábio Pirajá

Triste o período pelo que passa o rádio no Espírito Santo e no Brasil. Estamos assistindo, de braços cruzados, à extinção do que eu denomino de “Era dos Dinossauros” do rádio.  Sabemos que os períodos geológicos radiofônicos, de tempos em tempos, provocam a inevitabilidade das extinções em massa, o mesmo que se deu com os dinossauros há 65 milhões de anos, no fim do Cretáceo. O que nos deixa apreensivos é a perspectiva de que esses eventos catastróficos não são culpa ou negligência dos sujeitos e agentes dessa história – nós mesmos “os dinossauros do rádio”. Sem querer associar a palavra “dinossauro” ao que muitos poderiam ligar à coisa antiga, museu, jurássica ou perdida no tempo, tento passar a idéia de que esses “monstros” do rádio não estariam sendo extintos senão pela força oculta da natureza das ações equivocadas dos empresários de rádio no Espírito Santo, especialmente na Capital, Vitória, de onde sempre saíram os maiores nomes do veículo desde a criação da primeira emissora nos anos 30.

O que vemos hoje é a ascensão de uma ordem de novos “seres do rádio”, que eu poderia comparar facilmente aos mamíferos, que depois da Era dos Dinossauros, tomaram facilmente conta do nosso planeta rádio, por absoluta falta de concorrência profissional.

O fato é que os mamíferos jamais teriam chance contra os dinossauros na luta pela supremacia, por vários motivos óbvios – tamanho, ferocidade, adaptabilidade e profissionalismo, além da experiência acumulada ao longo desses milhões de anos em que estiveram dominando as ondas do rádio em nosso estado.

O que está acontecendo mesmo é a extinção involuntária dos grandes profissionais do rádio no Espírito Santo e no Brasil, em função da falta de capacidade e competência técnica de gerentes, diretores e proprietários de emissoras, que ao longo dos últimos 20 ou 30 anos, justificaram essa anomalia como sendo reciclagem natural, apostando tudo na tecnologia, nas demissões, nessa reengenharia absurda, trocando pessoas por computadores. Você acredita mesmo que isso pode dar certo?

As pessoas estão em busca de alguém que lhes diga algo e não de computadores, programas gravados e esquemas automatizados, absolutamente frios e vazios de conteúdo como ouvimos hoje, todos os dias e em quase todas as emissoras de rádio. Onde está o profissional de rádio de antes, inteligente, que nos fazia pensar e emocionar?

Na verdade o mercado de locutores não colocou nada novo no ar desde a última geração, no começo dos anos 80 e na qual me incluo, junto com Kazinho, Emerson Miguel e Volney Rocha, apenas citando alguns nomes.

Nem mesmo as faculdades, com seus cursos de radialismo, serão páreo para o mercado predatório e seus baixos salários, o que fará inevitavelmente que alunos interessados em rádio simplesmente mudem de opção depois que conhecerem como realmente funciona o veículo no estado. O que vemos, ou melhor, ouvimos hoje nas rádios de Vitória, é uma horda de profissionais de nível questionável, engessados dentro de esquemas nada criativos, colocando novamente, toda uma raça em perigo de extinção.

Talvez seja a hora dos verdadeiros profissionais do rádio se levantarem e buscarem seus lugares dentro da história.

O que aconteceu com os nomes dos anos 40, 50…? Só temos alguns exemplos vivos como Jairo Maia e alguns poucos – e os outros? E a nossa própria história? Nossa sobrevivência como espécie depende disso.

Não se faz um bom rádio sem os profissionais de antes – como aprender se não há ontem, se não há professores ou avós? Quando comecei minha carreira em 1982, já não havia muitas fontes de aprendizado e pesquisa ou em quem nos espelhar, mesmo assim contra todas as probabilidades tive a oportunidade de conviver com alguns dos bons nomes do nosso amado veículo, como Luis Carlos Peixoto por exemplo.

Acho que não basta uma expedição paleontológica aos confins do rádio capixaba pra desenterrar o que tivemos e ainda temos de bom em nosso meio. É preciso que haja mais comprometimento e talvez até uma ressurreição, dada a falta de opções nesse mercado saturado de currículos inchados e cabeças que não pensam, só sustentam chapéus.

Permeando a audiência das emissoras de rádio nesse século de aniversário do veículo, sempre encontramos a vontade de ouvir uma voz que nos prenda a atenção, guie ou conforte ao longo do dia e mesmo à noite – o speaker (o locutor). Muito mais que um profissional, o amigo de todas as horas, que nos acompanha todos os dias, alguém que sabe o que diz e que sabe por que está ali – essa história ninguém jamais mudará, a relação entre ouvintes e locutores de rádio.

No final das contas perdem os profissionais da área, os donos de emissoras e na outra ponta nós mesmos como ouvintes de rádio que sempre fomos e seremos pra toda a vida.

Como sempre me coloco à disposição para debater, discutir e até mesmo brigar se necessário, pra ver o rádio renascer das cinzas como uma Fênix Pterossauro, assumindo de uma vez por todas o seu lugar por direito.

Fábio Pirajá é capixaba, radialista, três filhos, nascido em Vitória do Espírito Santo em 29 de agosto de 1965, formado em Ciência da Computação pela FAESA. Teve seu primeiro contato com o mundo do rádio através do primo, o radialista e jornalista Venceslau Gomes, o Lalau, na Rádio Espírito Santo AM, por volta de 1977. Começou sua carreira como “discotecário”, antigo termo para DJ, com 14 anos. Montou sua equipe de som, Thunderclaps em 1978, seu primeiro home estúdio “Alfa Produções” e suas primeiras experiências com radiodifusão em sua rádio pirata Scorpion FM, em 1981. No verão de 1982 foi contratado como DJ do rink de patinação Zeppelin e da Boate Luazul, ambos em Guarapari e Boate Black Horse em Vitória em 1983, que se incendiou no mesmo ano. Em março de 1983, contratado como locutor pela recém inaugurada Rádio Tropical FM 103,9, estreia no programa Playlist Matinal, no horário de 11 às 15h. Passou pelas rádios Cariacica FM, Galáxia FM (Coronel Fabriciano – MG), Cidade FM (Vila Velha – ES), Capital FM, CBN e finalmente Gazeta AM (todas em Vitória – ES) onde permaneceu por 10 anos, até fevereiro de 2000. Com mais de 25 anos de experiência, hoje atua como apresentador e comunicador de rádio, DJ, locutor e ator publicitário e sonoplasta. Com estúdios próprios, faz locuções de publicidade para Rádio, TV, narração de filmes documentários, edição de áudio e vídeo e atua como mestre-de-cerimônias em eventos diversos. Na área de sua formação trabalha como web designer no desenvolvimento de páginas para a internet.

www.fabiopiraja.com | www.locutor.info

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