A família Trapo

Publicado em: 07/03/2010

Há quase uma unanimidade entre atores – por isso mesmo longe de ser burra – segundo a qual: fazer rir é um dos ramos mais difíceis e complexos da arte dramática. É fácil encontrar atores que nos façam rir de raiva ou do ridículo de suas atuações, mas um verdadeiro comediante, daqueles que são capazes de desarmar qualquer espírito carrancudo com um simples olhar… Ah, esses são muito raros! Piadas e esquetes rápidos têm sido uma fórmula eficiente e repetida em vários programas televisivos. Herança dos tempos do teatro de revista, ainda usam e abusam de malícia, sensualidade, tipos esdrúxulos e comentários preconceituosos para fazer rir. Mas são raros os programas que se aventuram a contar uma história contínua, com os mesmos personagens, num mesmo cenário e, sobretudo, ao vivo!

“A Grande Família”, versões 1970 e 2000, “Sai de Baixo” e “Toma lá, dá cá” – para citar alguns dos casos mais bem sucedidos – eram e são gravados. “Sai de Baixo” e “Toma lá, dá cá” tinha e tem a virtude de serem encenados com público. Isso não impediu shows de atuação de Miguel Falabella, Marisa Orth, Luís Gustavo, Marco Nanini, Marietta Severo, Alessandra Maestrini e dos saudosos e magníficos Rogério Cardoso e Jorge Dória, entre outros. Mas existe um programa inesquecível, que, ao menos, em minha opinião, nunca foi sobrepujado: “A Família Trapo”.

Exibido entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, aos sábados, a noite, ao vivo, “A Família Trapo” reunia um elenco tão estelar como curioso: Otelo Zeloni, o pai (Pepino, com seu bordão: “Pernachia!”.); Renata Fronzi , a mãe (Hélena); Jô Soares, o mordomo (Gordon – O nome já era um achado! -, invariavelmente surrado nas nádegas, por Pepino); Cidinha Campos, a filha (parecia Brenda Vaccaro!); Ricardo Côrte Real, o filho (adolescente desajeitado e incompreendido); Sônia Ribeiro, a criada; e o fantástico Ronald Golias, como o cunhado (Carlo Bronco Dinossauro).

Zeloni, Renata, Jô e Golias já eram comediantes consagrados, todos em excelente forma; mas a presença de Sônia Ribeiro, esposa de Blota Júnior, apresentadora sofisticada, culta e de voz perfeita – presença obrigatória em todos principais programas da TV RECORD -, como serviçal submissa já era impagável, pelo simples fato do papel nada ter a ver com ela!
Jô e Carlos Alberto de Nóbrega escreviam os roteiros e Golias tinha total liberdade para “pintar e bordar”. Para melhorar, a Record vivia seu apogeu, com os festivais e programas como: “Jovem Guarda”, “O Fino da Bossa”, “Hebe” e muitos outros, o que garantia participações especiais em quase todos os episódios da comédia.

Se, hoje, os erros de gravação podem ser mais engraçados do que a intenção original; na época os “cacos” corriam soltos e foram responsáveis por momentos memoráveis da televisão brasileira, como no dia em que Pelé, numa participação especialíssima, foi chamado para reforçar o time em que Gordon era o goleiro e Bronco o centro-avante. Bronco não havia sido consultado e, enciumado, resolveu testar as habilidades do novo jogador na cobrança de pênaltis:
Quando Pelé, na primeira cobrança, deu sua tradicional “paradinha”, Bronco gritou, em tom de desfeita: “- Assim você cai!”. Noutro chute do Rei, Gordon aparou, primeiro, e, depois, desabando seus cento e tantos quilos no palco, praticou uma sensacional e improvável defesa, sob os aplausos e risos da platéia… Infelizmente, esse foi um dos poucos episódios da série salvos dos incêndios nos teatros da Record.

Bons tempos! Já tentaram imitá-los – inclusive o próprio Golias -, mas também foram únicos!
Daquela a “troupe”, Golias, Renata Fronzi, Sônia Ribeiro e Zeloni nos deixaram. Cidinha Campos abraçou a carreira jornalística e virou política; Ricardo Côrte Real enveredou pelo ramo publicitário. Renata Fronzi ainda continuou figura marcante, embora bissexta na telinha. Golias permaneceu, incansável enquanto pode, e, sempre, cunhado. Só Jô continua a desfilar seu humor e cultura nos fins de noite, de segunda à sexta… Mas não consigo dissociá-los dos personagens de “A Família Trapo”!

Talvez porque eu era criança… Talvez porque rir faz bem… Talvez porque o programa era, simplesmente, danado de bom!

Com certeza, é por tudo isso!

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