A fascinante Laguna

Publicado em: 19/08/2007

Sentia uma certa inveja, nos idos de 1950/1960, ainda em Araranguá, na flor dos 10 a 15 anos, dos conterrâneos cujo privilégio de estudar em Laguna os colocava num patamar superior em meio à gurizada.
Por Aderbal Machado

Os filhos do Dr. Ramiro Cabral Ulysséa, advogado solicitador (ou provisionado, como diziam) como meu pai, experiente e formado na escola da lida jurídica tiveram essa oportunidade e, sempre, falando com um deles de cujo nome não recordo, ele me comentava, orgulhoso: “Vou para Laguna, terra das tradições!”. E aproveitava para dar uma entonação majestática na fala. Quem me dera conhecer Laguna, que a mim me parecia um lugar divinal, o próprio Éden.
Pois pouco tempo depois, não sei precisar o ano (1956, 57 ou 58, sei lá), o Agilmar havia sido indicado para gerenciar a Rádio Difusora e casou por lá com uma bonita jovem da sociedade local, Maria Carmem Rollim Borges – hoje senhora residente no Rio de Janeiro, se me não engano. E me convidou para ficar uns dias por lá. Meu Deus, foi a glória suprema !
Lá cheguei e fiquei fascinado com o que vi. Logo nos primeiros dias, o Agilmar me levou para conhecer o Museu Anita Garibaldi, a Praia do Mar Grosso, a Pedra do Frade na Praia do Gi, o Farol e me levou para assistir um filme no Cine Mussi. Naquele tempo, o “must”: cadeiras estofadas, freqüentado pela fina flor da sociedade local (todos se vestiam bem para ir às sessões…), cortina bordô descerrando para iniciar o filme ao som de um conjunto chamado “Marimba Cuzcatlan”, após três badaladas de um gongo sonoríssimo.
Ali vi, pela vez primeira (lá se vão quase 50 anos), uma série de desenhos de Tom & Jerry. Exatamente os mesmos gostosos desenhos que ainda hoje são exibidos à exaustão por redes de televisão a cabo e aberta.
A rádio ficava numa construção antiga, bem numa das esquinas da praça central, onde antes funcionara um cinema. Tinha auditório e tudo. Um ambiente a que um dia me habituaria e no qual até hoje estou.
Pois, depois de alguns dias – o Agilmar morava num casarão velhíssimo, quase caindo aos pedaços, na Rua Voluntários Benevides, perto do Hospital e do Fórum, na época – chegou o dramático momento de ir embora. E eu não queria.
Mas o Agilmar queria um pouco de privacidade e eu, como todo guri, era muito abusado, chato, exclusivista e meio predador do sossego alheio, atrapalhava o seu desejo de colóquios mais sossegados com sua mulher.
Então, ele me levou na Estação Ferroviária (a viagem era de trem, Maria Fumaça, até Araranguá – seis horas sob fuligem e muita enjoação. Hoje sinto saudades e acho até muito romântico, mas naquele tempo…). Ali fiquei, louco para não ficar. Bolei um plano: vou fazer de conta que perdi o trem. E assim fiz.
Fiquei na estação um tempo, fui até o telefone (era duro telefonar), esperei um monte, consegui uma ligação e comuniquei ao Agilmar que havia “perdido o trem”. Chovia um pouco, era frio e ele, muito p. da vida comigo, disse que ia mandar um táxi me buscar. Uns sujeitos estavam por ali, com quem conversei e me gabava de que “meu irmão iria mandar um táxi me buscar”.
Daqui a pouco, chegou ali o Wilfredo Silva, locutor da rádio, em uma bicicleta e com um guarda-chuva. A gozação foi geral e eu fiquei roxo de vergonha.
Dali em diante, nunca mais o Agilmar me convidou para ir a Laguna. Com razão.
Fonte: http://www.debamachado.blogspot.com/
 


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