A feira encarcerada

Publicado em: 20/11/2013

As feiras livres são um universo à parte. Elas carregam, com fidelidade, muitas das tradições que, desde a Idade Média, configuram as transações comerciais. O que têm de bom e de mau está ali sempre: contatos humanos em torno das mercadorias; venda de produtos frescos; lugar onde produtores podem entregar, expor e vender seus produtos diretamente aos consumidores; cheiros e sujeiras; alaridos matutinos que perturbam a vida de moradores nos locais onde se realizam…

A cidade do Rio de Janeiro sempre foi, como sabemos, o centro cultural do Brasil. E, desde a vinda da família real, adaptou sua vida como um burgo colonial no qual os serviços prestados, sobretudo pelos escravos, espalhavam-se pelos quatro cantos. Transitavam por praças, ruas, becos, vielas desde os dejetos recolhidos até os quitutes mais saborosos. E talvez cidade nenhuma do mundo tenha tido tão sonoros e criativos pregões cantados por vendedores mil, os ancestrais dos nossos ambulantes.

Quando, com o decorrer dos séculos, a cidade foi se urbanizando e as coisas melhorando, nasceram as feiras livres.

Espalhadas pelos bairros, as feiras fixaram essas transações comerciais em lugares, dias e horários determinados. E se entranharam por completo na vida dos bairros e de seus moradores.

Quem viveu o Rio de ontem sabe como as feiras livres marcaram nossas vidas, com seu barulho desde a madrugada, os feirantes quase amigos íntimos de seus compradores, a gritaria dos barraqueiros, primeiro com o sotaque português, depois com a fala cantada nordestina.

O cheiro das frutas, o colorido das mercadorias, os sacos de cereais dobrados até a metade, expondo os grãos que eram vendidos a granel; a barraca de peixe, com o odor impregnando a feira toda; os queijos e doces; o mar verdejante de alfaces, couves, brócolis, chicória, agrião; as linguiças e toucinho mexendo com nossas papilas gustativas…

Ah, e o genuíno e inigualável pastel de feira? Frito na hora, lançava seu cheiro de gordura pelo ar na feira inteira, nas ruas em volta, no bairro, no mundo, na alma da gente.

Avançada a manhã, o início da tarde via o desmonte das barracas. Caminhões conseguiam, incrivelmente, equilibrar uma pilha de tabuleiros. E a feira se ia, deixando na rua muito trabalho para o pessoal do lixo.

A feira livre ainda está aí; resiste, mas se modernizou bastante, já tendo até carros frigoríficos e balcões refrigerados. Além das inevitáveis transformações, um inimigo talvez impossível de vencer veio se chegando e chegou para ficar: os “hortifruti”.

Essas redes de lojas são, para mim, feiras encarceradas. Seu ambiente é asséptico; a arrumação da mercadoria, impecável; a reposição, constante, recolhendo-se a todo instante aquelas frutas, verduras e legumes que, em tempos idos, faziam a festa de quem esperava a “hora da xepa”.

O silêncio impera de tal forma que os consumidores chegam a falar sussurrando, como se estivessem prestando reverência ao deus do consumo organizado, que estende seu reino ao armazém, que virou supermercado, à farmácia que se transformou em drogaria, aos restaurantes que se transmudaram em vendedores de comida a quilo. Esse silêncio só é quebrado pela música ambiente, que enfia por nossos ouvidos adentro uma tal “world music” aquela coisa estereotipada que ninguém sabe bem o que é.

Ah, que saudade devem ter os legumes, frutas e verduras da liberdade, do barulho e até da falta de higiene das velhas feiras. Lá estão eles, arrumadinhos e brilhantes sob luzes fortes, sem o vento, sem a poeira – mercadoria bonita mas que parece triste.

Fico imaginando: será que um dia não aparecerá um menino levado que roubará uma tangerina, um cacho de uvas, uma banana madurinha e sairá correndo com o empregado inutilmente em seu encalço?

Mas, qual, não há meninos e, talvez, nem vida verdadeira haja nessa feira encarcerada.

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