A felicidade perdida

Publicado em: 31/07/2012

E a gente nem sabia de nada. Foi preciso que o Correio do Povo, de Porto Alegre, viesse sacudir o nosso sono provinciano, lembrando-nos da nossa própria felicidade. Estávamos dormindo. E tão ignorante somos que nem sabíamos que éramos um povo feliz . Vivemos tão embriagados com a nossa felicidade que nem nos damos conta dela. As nossas necessidades e as nossas solicitações são atendas tão prontamente que não temos tempo de pensar. Acompanhamos a vida triste de cidades como o Rio e São Paulo, Roma, Paris, Oropa e Bahia. Gente que se acotovela e que se aperta, apressada e infeliz, cheia de problemas, sem conforto, sem água. Tão infeliz, tão mecanizada, tão automatizada. Pobre gente. Como deve ser insípida a sua vida. Ponto de exclamação.

Afinal, como foi que o Correio descobriu a nossa felicidade? Estávamos tão quietinhos, que ser quietinhos é a nossa vocação, e lá vem um jornal dos pampas complicar a nossa lua de mel com a felicidade.

Erámos modestos e humildes, na simplicidade franciscana de nosso jeito meio embatucado, e já nos nasce uma pontinha de orgulho e de vaidade.

Como a linda Inês ruminávamos o nosso sossego distrital e a nossa passividade bovina, entre uma fofoca e uma badalação para, de repente, sermos descobertos pelas luzes da publicidade.

Tanto isso é verdade que se iniciou em nós um processo de envaidecimento a que não resisto. Tanto que aí vai o texto final da descoberta dos nossos invejosos vizinhos do sul.

Terra feliz, assim, sem dívidas e aflições, Santa Catarina terá cantado a Noite Feliz com uma autenticidade total, porque viu entrar 1968 sob os mais animados signos e as mais ensolaradas perspectivas.

Que bonito! Lindo mesmo!

E nós não sabíamos de nada, gente!

Estávamos tão distraídos, ronronando a nossa felicidade que nem imaginávamos pudesse alguém ser menos feliz do que nós.

A vida, contudo, diria Acácio (o conselheiro e não o prefeito), é assim mesmo.

Quando menos se espera algo acontece e modifica completa e irreversivelmente toda uma existência, antes tranquila, serena e fácil.

E agora, como vai ser?

A gente toda que lê o Correio não vaia resistir o chamado da felicidade.

Como a musica daquela feiticeira lendária – será Circe? – a  descoberta gaúcha vai trazer à nossa Ilha e às nossas praias uma invasão de pobres mortais castigados pelos maus fados e pela má fortuna.

E a nossa felicidade vai pro brejo.

Vamos ter de dividir o nosso quinhão diário de felicidade uma porção de gente chata e nervosa.

Isso aqui vai virar um mercado persa. Vamos te ruma super população. E vai começar a faltar água. E vai haver congestionamento do tráfego. E vamos ter buracos nas ruas. E nossos autênticos líderes políticos vão deixar de sê-lo, aqui virão outros de bota e barbicacho.

Nem é bom pensar.

Resignemo-nos coma nossa sorte.

Mas por que, diabo, o Correio foi descobrir que somos um povo feliz?

| | | | | | | |

Levei o maior susto ao visitar a Lagoa da Conceição.

A praia sumiu e em cima dela botaram uma Avenida.

Em qualquer lugar do mundo, uma providência dessa natureza implicaria em junta médica urgente para seus idealizadores e executores. Porque não é possível admitir, mesmo que apenas o bom senso fosse acionado, que se destrua inteiramente uma praia, aterrando-a, para construir uma Avenida.

Em outras cidades gastam-se os tubos para conseguir maiores faixas de areia (Copacabana é uma aprova) e aqui gastam-se milhões para acabar com a faixa de areia.

Nem todos os estudos técnicos do mundo vão me convencer do contrário: a Avenida da Lagoa foi a burrada mais monumental do ano.

E, parece, pretendem cometer o mesmo crime em Canasvieiras.

Que me perdoem os nossos competentes urbanistas, mas o futuro agradecerá a fantástica visão dos responsáveis por essa grossa asneira e autêntica calamidade.

| | | | | | | |

No almoço realizado no Palácio da Agronômica, o governador Ivo Silveira afirmou que a Nação vai bem em Santa Catarina.

O presidente da República respondeu, afirmando que ficava muito satisfeito por saber que a Nação vai bem em Santa Catarina.

Garantiu o Presidente que a Nação também vai bem em todos os estados.

Como a Nação vai bem em Santa Catarina e a Nação vaia bem nos demais estados, está tudo bem.

Ainda bem.

| | | | | | | |

De um locutor de uma de nossas emissoras, fazendo judiciosas considerações em torno do tempo: A temperatura está esquentando em Florianópolis.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *