A folia que vem do gosto popular

Publicado em: 10/02/2013

Nas ruas. Há mais de um século, sociedades e blocos fazem o autêntico carnaval da Capital. É Carnaval | Parte 1

Paulo Clóvis Schmitz *

Maurício Amorim. Foto Marco Santiago/ND

No lugar de “Erguei as mãos”, sucesso do padre Marcelo Rossi, as bonecas entoavam, mantendo a melodia e o movimento dos braços, “ser gay é bom”, e se iam, escrachadas, pelas ruas de paralelepípedo. Foi o Lic Gay, vinculado ao Lagoa Iate Clube quem deu novo gás aos blocos de sujos de Florianópolis, dos anos 1980 em diante, com temas como Ereções Diretas (alusão à campanha das eleições diretas para presidente da República), Penca do Traseiro Liberal(quando surgiu o PFL) e Muchacho Tesão – Carlos Gaydel (crítica à invasão de argentinos na Ilha em 1986).

Mas, blocos existem de todos os tipos, dos performáticos aos que primam pela desorganização desde que o grupo Diabo a Quatro ensaiava os primeiros passos nas apertadas vias de Floripa, por volta dos anos 1880.

Se as escolas é que fazem sucesso, e sugam – à exceção deste ano – a maior parte do orçamento público do carnaval, são os blocos que arrastam multidões e estão na gênese da folia. Desde o entrudo, inocente divertimento do século XIX que consistia numa guerra de limões de cheiro moldados em cera liquefeita, até os grupos atuais, que arrastam milhares de pessoas pelas ruas e avenidas, os bloco é que representam o carnaval de fato, aquele no qual o povo é recebido sem reservas. “Sua importância está em ser popular, enquanto a passarela é elitista”, afirma Maurício Amorim, carnavalesco empedernido, criador de festas e de refrãos que marcaram época.

Além da irreverência que é sua marca registrada, os blocos chamam mais atenção, muitas vezes, pelos nomes com que foram batizados. Se no começo as denominações eram discretas, como convinha ao momento (Trem Azul, Os Bororós, Bando da Noite, Brinca Quem Pode), ou levemente picantes (Tira a Mão, Virgens da Major Costa), atualmente a ousadia e que manda. O Marisco da Maria e o Baiacu de Alguém, são bons exemplos disso. O Pauta que Pariu, formado por jornalistas, também.

Lanças de bambu, afinação zero

Um dos primeiros blocos da cidade foi o Filhos da Lua, mas poucos marcaram tanto quanto o Bororós.

Maurício Amorim se lembra bem: “Era um grupo cujos integrantes saiam de tanga, pintados com carvão ou graxa, levando um “homem das selvas” dentro de uma gaiola de pau. As lanças eram toscas, de bambu, e durante duas horas eles nada mais faziam do que cantar a expressão “Aí eu vou, aí eu vou…”. Já existia então, uma rivalidade entre os morros da Caixa e do Mocotó. Os primeiros criaram o bloco Mocotó Vem Abaixo, sugerindo o desabamento das casinhas do morro e seus oponentes reagiram fundando o bloco Tatu Subiu no Pau.

Aldírio Simões, jornalista e carnavalesco de mão cheia, criou no bairro do Abraão o bloco Ânsia de Vômito, e os funcionários de empresas publicas de economia mista e privadas da cidade inventaram, uma após outra, blocos como Em Cima da Hora (extinta Telesc), Energia Radiante (Celesc), e Consulado (Eletrosul). O SOS nasceu na Fundação Hospitalar e é um dos mais bem sucedidos da Capital, arrastando uma multidão para as vias públicas.

A história dos blocos não pode ignorar a relevância que tiveram ou têm os Batuqueiros do Limão (de Marquinhos do Cavaco, no Saco dos Limões), Aí Vem a Marinha (do Lira Tênis Clube), o Berbigão do Boca (do qual a Nega Tide foi “Madrinha Eterna e Única”), o Bloco da Liberdade e a impagável Philarmônica Destherrense, comandada por Tullo Cavallazzi, que se caracterizava pela absoluta falta de harmonia e afinação.

Os “enterros” se encontram na Praça

Maurício Amorim destaca o bloco Sou Mais Eu, que surgiu no Colégio Catarinense, tendo como líderes os carnavalescos Caco Bastos e os irmãos Abraham, e que faz a alegria do Centro da cidade do sábado até a terça-feira de Carnaval – trazendo por baixo, 10 mil pessoas para a Praça XV. O próprio Amorim realizava um concurso de beleza com homens vestidos de mulher no Lira TC no qual todas as concorrentes eram do signo de Virgem, tinham 24 anos e haviam lido “O Pequeno Príncipe”. Depois, o bloco do clube dava uma volta na Praça para se juntar apos demais foliões.

Amorim foi três vezes presidente do Clube Paineiras, sediado na rua Felipe Schmidt, onde nasceu “O Enterro da Tristeza” em 1964, exibindo um manequim como defunto e preparando a Noite do Terror, na quinta-feira que antecede o Carnaval. Com 45 anos de samba ele se lembra que mais tarde a brincadeira foi adotada pelo Clube Ipiranga, do Saco dos Limões, e pela boate Dizzy. Um dia, os dois “enterros” se encontraram na Praça, e a confusão foi geral.

[email protected] | Carnaval | ND | 09 e 10/02/2013

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