A gaiola

Publicado em: 24/05/2005

Ao lado do motorista, ia a gaiola com um coleira muito cantador. Atrás, uma multidão de infelizes sacolejando na lata velha a que se costuma, nesta cidade magnânima, dar com freqüência o impróprio nome de ônibus.`
Por Flávio José Cardozo

– Eta porcaria! – gritou um velho assim que andou uns duzentos metros depois de ter embarcado. – Sempre atrasado, sempre lotado. Aumentar a passagem eles sabem, melhorar esta droga não melhoram nunca.
A voz esganiçada foi bem recebida: alguns passageiros bateram palmas. O motorista não estava nem aí, cuidava da direção e se deliciava com a música do seu coleira.
– Eta pouca vergonha! – continuou o velho ao ver o ônibus encostar logo adiante para apanhar mais uma meia dúzia de sofredores. – Daqui a pouco tem um na garupa do outro. Eu, hein!

A turma bateu mais palmas. Todos sabiam que não adiantava nada reclamar, mas era bom ouvir a bronca de algum teimoso. Alheio ao barulho, o passarinho cantava. A manhã estava de fato esplêndida, com um sol como há semanas não acontecia na Ilha. O motorista trouxe o coleira para passarem o dia juntos e o bicho estava que era só alegria.
– Só passarinho mesmo pra andar contente dentro disto aqui – disse o velho ao dar-se conta dos trinados. – É até uma covardia botar o coitadinho nesta nojeira.

O pessoal aplaudiu de novo, mas o motorista agora se chateou, pois o assunto passava a ser com ele também, não só com o ônibus. Com uma cara bem feia, fez questão de rebater na hora:
– Te acalma, velho, tu tás piando muito.

O velhinho embrabeceu de vez. Primeiro, por ser chamado de velho, segundo por ser tratado de tu, terceiro porque não estava piando, estava protestando. Um tanto quanto histérico, repetiu:
– Covardia, sim. E isto aqui é mesmo uma nojeira. Uma nojeira, ouviu?
– Muito bem! – berrou o ônibus inteiro.
O passarinho cantava mais ainda, como se estivesse querendo complicar a situação. Dava para ver que o motorista se controlava, mas estava prestes a ferver.
– Só um passarinho muito do bestinha pra gostar dessa joça – tornou o velho.

Era demais. O motorista parou o ônibus, sim, parou o ônibus, com gestos bruscos. Abriu a porta e, enérgico,  determinou que o velho descesse imediatamente. Imediatamente! Ouvir falar mal do ônibus, tudo bem, ouvir falar mal dele próprio até que agüentava, mas falar mal do coleira, chamar seu coleira de bestinha… não, isso não.
– Desça!
– Pois desço. Desço porque moro ali na frente, já ia descer mesmo, mas ele vai comigo – decidiu o velho.
Que agilidade! Pegou a gaiola e, antes que o motorista pudesse fazer qualquer coisa, já estava com ela na rua. E disse, com voz decidida, abrindo a portinha:
– Vai, istepô! Vai cantar num lugar decente, istepozinho puxa-saco!
Uma tragédia fácil de imaginar. Furioso, o motorista desceu disposto a achatar o autor da bárbara safadeza. Chegou a pegá-lo pelo colarinho, mas alguns passageiros mais prudentes e ágeis conseguiram evitar o que podia ter sido um assassinato. O que se seguiu foi uma discussão cheia de calor.
– Filho da mãe, fazer isso com meu coleira!
– Um coleira abobado. A gente aí nessa joça, sofrendo, e o palhaço cantando como se tivesse ganho a loteria. Soltei pra ele sair pelo mundo, ir gozar a vida, deixar de ser puxa-saco.
– Vais pagar, pensa que não? Vou te levar pra polícia. Vais trabalhar um ano inteiro pra pagar o que meu coleira valia.
– Não valia nada.
Valia, não valia, vais pagar, não vou pagar, o debate não teria mais fim se um menino não gritasse:
– Está lá ele!
De fato, a uns vinte metros, trepadinho num galho, o pivô daquela guerra punha-se a cantar de novo na manhã dourada. Trêmulo, o motorista agarrou a gaiola e foi ao encontro dele:
– Meu Deus, meu Deus…

Os passageiros ficaram na expectativa. A cena se tornava meio patética – um homem em busca do passarinho perdido. Não sei se, no fundo, cheios de pena, já não estavam todos torcendo para que ele o recuperasse.
– Vem, vem – ia dizendo o motorista, com carinho e ânsia. Ninguém falava, o próprio velho mantinha-se atento, até ele quem sabe já desejando que aqueles dois não se separassem. – Vem, vem, neguinho, vem, vem, vem comigo, vem.

Sabem então o que se deu? Pois não deu outra: o coleira estufou o peitinho, arrematou umas dobras que estava mandando para o ar e… pois é, partiu decidido para não sei onde.

Ouviu-se um longo oh de indefinido sentimento – um oh alegre e triste ao mesmo tempo. Depois aquela gente viu o homem sentar-se numa pedra e, por algum tempo, dar a entender que chorava. O resto da viagem ele fez dividindo o olhar entre a estrada e a gaiola vazia encostada no pára-brisa.

E ninguém teve coragem de reclamar da sua vagareza.
(Do livro Uns papéis que voam, São Paulo, FTD, 2003)


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