A garagem de Porte D’Evry

Publicado em: 07/06/2005

Levei quase uma hora trocando de trem até chegar a Porte D’Evry, no sul de Paris. Era um daqueles bairros tradicionais antigo. A garagem, de cinco andares, dois prá baixo e três pra cima, ficava bem em frente a uma boulangerie (padaria) e a um café.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Um escritório à direita de quem entrava, no topo de uma escada, e no centro uma ‘guarita’ de vidro, para o vigia. O dono ficou contente com a minha pontualidade. Mostrou-me o serviço, me apresentou o cachorro da garagem, Julles, que também atendia pelo apelido de Jullot, e foi passar o natal com sua família. Começava a escurecer e fazer frio.

Entrei na cabine de vidro – tinha um aquecedor sob a secretária. Estava confortável. Julles começou a arranhar a porta com a pata, pedindo para entrar. Mal abri a porta ele a empurrou com força e foi se instalar junto ao aquecedor, no único lugar para os meus pés.

Jantei meu pão com banana e uma fanta. Essa combinação resultou em fortes gases.

No primeiro pum, Julles empurrou minhas pernas com força e tentou abrir a porta. Sendo pesada, olhava feio para mim e dava patadas no vidro. Mal comecei a abri-la e ele saiu empurrando, de cara amarrada! Foi respirar ar puro! Lá pelas nove da noite, apareceu o vizinho da casa ao lado com dois embrulhos em papel de alumínio. Um ele despejou no prato do Julles – varias partes de peru assado. O outro me entregou dizendo “de isso mais tarde ao Julles. Joyeux Noel”, e foi embora. O outro pacote continha uma galinha recheada inteira, assada no forno. Foi o meu jantar de noite de natal.

O companheiro canino nem sequer tocou nos pedaços de peru que ganhou! Meu anjo da guarda não me deixou na mão. Mais tarde Julles voltou a bater na porta de vidro pedindo para entrar – queria sair do frio. Abri a porta, o cachorro meteu o focinho do lado de dentro, cheirou fundo e, em vez de entrar quase que a força como antes, fez focinho de broca e foi sentar perto do aquecedor.  Eu acabara de ganhar uma bronca de um canino? Essa foi  a minha sensação! Passamos a noite nesse jogo.

O pão com banana e fanta ainda faziam efeito, e volta e meia Julles se retirava do recinto, mas não demorava a voltar, repetindo primeiro cheirar dentro da cabine, para só depois entrar. Duas vezes ele cheirou e preferiu o frio. As seis da manhã vi acender a luz sob a parta da padaria. Pouco depois veio aquele cheirinho característico de croissant quente. O bar ao lado abria as portas. Agora era o cheiro de café fresco. Que suplicio! Era como um manjar dos deuses – croissant quentinho com aquela media preta!

Julles continuava lá na cabine, aquecendo o corpo sem ventos uivantes. Esse foi o meu primeiro natal em Paris. São memórias que nunca mais se apagarão. Cada vez que entro numa padaria e sinto o cheiro de croissant fresco, não posso evitar me lembrar daquela garagem e do Julles um cão com apelido, Jullot! Julles e eu entramos num acordo quanto ao uso do aquecedor. Dividimos o espaço sob a secretária. E eu nunca mais comi pão com banana banhado a fanta!

Esse ‘bullot’ (jabá) durou quatro fins de semana, até o vigia oficial voltar de férias.

Não sei dizer se Julles sentiu minha falta, mas eu senti muita falta daqueles croissants quentinhos. O inverno se fazia presente, e o quartinho do sexto andar estava ficando uma geladeira. Precisavamos fazer alguma coisa, e logo! A clarabóia sob a minha “cama” estava sempre branca de gelo pela manhã. Falamos semana que vem.


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