A goiabeira do prédio vizinho

Publicado em: 20/03/2014

Temos uma relação antiga e profunda, eu e a goiabeira do prédio vizinho. Daqui de minha janela a vejo com carinho. Como eu, confinada entre altos edifícios, ela deve ter a nostalgia dos grandes espaços, dos goiabais da roça, que vivem também nos campos imensos da minha saudade.

Seu caule marrom claro e amarelado, lisinho numas partes e com nós aqui e ali, tem galhos que parecem braços erguidos em busca da imensidão.

Suas folhas são de variados tons de verde, que vão do verde profundamente escuro ao verde claro. Fico imaginando se isso não representa vários tons de verde esperança que, como nossa esperança humana, varia a toda hora, indo da euforia confiante às raias da desesperança.

Minha amiga goiabeira não é mirrada; longe disso, é alta e forte, espalhando seus galhos e ramos, desafiadoramente, por sobre o muro. Parece afirmar sua férrea vontade botânica, enfrentando e se impondo às circunstâncias adversas – a poluição, o pequeno espaço de terra em meio ao chão acimentado, o terreno de má qualidade.

Afirma-se, também, minha amiga goiabeira, numa insistência produtiva: mais de uma vez por ano, projeta-se na generosidade de seus frutos. São goiabas vermelhas. Na maioria dos meses, lá estão elas, primeiro miudinhas, logo após a floração, depois mais crescidas, até que atingem o tamanho no qual se transformam em goiabas amarelinhas, como se fossem jóias de ouro no estojo de cor verde musgo das folhas.

Suas florezinhas brancas são delicadas. Há uma fragilidade romântica naquelas flores, como um amor olfativo espalhado ao redor, para gente, para insetos, para os passarinhos. Se existe, de fato, esse discreto perfume, não o sinto; provavelmente, minha sensibilidade humana, embrutecida em meio à poluição e aos cheiros fétidos da cidade, não o consegue captar. Mas as formiguinhas, os pequenos insetos e os pássaros com certeza sentem esse irresistível apelo que os convida a provar as goiabas maduras. Assim, enquanto se deliciam, esses animais contribuem para que a goiabeira continue se multiplicando em semeadura, por aí, no milagre da perpetuação da vida vegetal.

Apesar de seu vigor, não é nova minha amiga goiabeira. Eu a vejo há mais de trinta anos. Antes, bem pequena, mostrava apenas uns galhinhos, uns ramos e folhas por sobre o muro. Era como essas criancinhas que vemos, nas pontas dos pés, ainda sem consciência do seu pequeno tamanho, tentando ver mais longe que seu olharzinho pode alcançar.

Aos poucos, a goiabeira, cresceu e se impôs, bonita e frondosa. Provavelmente, terá crescido também em sabedoria – uma sabedoria intrínseca na natureza ao nosso derredor, embora nós, animais humanos, continuemos nos considerando os mais sábios seres que existem. Pobre arrogância a nossa…

Gosto de imaginar que minha amiga goiabeira também me observa, e acompanha a minha vida; que vê meus altos e baixos; que repara em meus momentos de euforia e depressão, de felicidade e de tristeza.

Algumas vezes, minha amiga goiabeira me presenteou com seus frutos. Certa feita, observei-a carregadinha de goiabas bem maduras, e admirei sua grande produtividade. Naquela mesma noite, como se tivesse se tornado cúmplice da ventania, a goiabeira viu seus frutos, quase todos, cairem no meu lado do muro.

No dia seguinte, cedinho, antes que outros vizinhos aventureiros lançassem mão, peguei todas as goiabas – mesmo aquelas já bicadas pelos passarinhos e saboreadas pelas formiguinhas. E aproveitei tudo: comi o fruto; fiz um doce em calda; das cascas fiz uma geléia. Até as sementes e parte da polpa serviram para preparar um delicioso suco.

Enquanto saboreava o que a generosa goiabeira me deu, agradeci a todos os deuses da natureza, desejando que eles protejam essa velha amiga, para que ela possa continuar, por muitos e muitos anos, trazendo beleza e sabor à vida de muitos.

Agora mesmo, enquanto escrevo e leio esta crônica, lá está a goiabeira, que parece me olhar, com seu tronco liso e brilhante, com suas folhas verdes douradas pelo sol.

Sabe de uma coisa, caro leitor? Cá entre nós, acho que essa goiabeira é mais minha do que dos vizinhos!

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *