A herança

Publicado em: 26/08/2012

A família entrou depois de mim no coletivo. Quatro moças morenas, cabelos cacheados, muitos adereços, roupas baratas, mas à moda das periguetes da novela. Também os dois em questão. O velho, pele clara, olhos verdes, barba rala por fazer, homem muito simples e pouco afeito às novidades urbanas, parecia inseguro. Relutou a entrar no ônibus reafirmando, muitas vezes, que já havia pago a passagem na entrada do Terminal.  O outro era jovem, uns dezoito, mulato, cabelo cortado com máquina zero, correntões, na moda, como um raper. Mal sentaram, começaram – ou continuaram – a discutir. O jovem acusava o velho de haver dado com a língua nos dentes, contando algo para “ela”. O velho jurava que não. O jovem dizia que sim. As vozes alternavam-se repetindo as mesmas frases – sabe “sem tirar nem por?” – os argumentos escassos, mas a raiva muita.

O ônibus girando. A conversa também, do fim para o começo. Na metade do trajeto, o meu trajeto, finalmente ela atingiu o ponto crítico: a herança deixada pelo “pai”. Disse o moço: – O senhor não tinha nada que ficar com o que era do meu pai, tio! (Pensei que era avô!)

Disse o velho: – Por que que não?! Fui que criei ele! Como quem diz…

O rapaz o interrompeu repetindo: – Não interessa! O que é do pai tem que ficar pro filho! Não pro irmão!

Disse o velho: – Mas se tu nem sabes usar!

Não interessa! O que era do meu pai agora é meu, seu velho naba!

As moças, uma a uma, pediam calma, mas logo desistiam. Comecei a me preocupar, eles estavam na “cozinha” e eu no banco mais próximo – e se um deles puxasse uma faca? Um revólver? A coisa não está fácil! Mas não! O que o rapaz sacou foi uma preciosidade!

Eu não quero nem saber! Pode devolver a minha tarrafa!

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