A história do nosso rádio estava sendo descartada

Publicado em: 04/12/2011

Memórias | Capítulo 9 | Novos proprietários

Em 1968 a Rádio Clube Paranaense foi adquirida pelo grupo formado pelos Srs. João Mansur, William Mussi e Adonis Bufrem. Foi então que houve a rescisão de contrato de um grande número de funcionários. Eu fui o primeiro. Logo após, Sérgio Fraga, Mario Vendramel, os cantores, os músicos e assim por diante. Um dia, casualmente passei pela Rua Barão do Rio Branco, em frente ao prédio da Bedois. Fiquei chocado ao ver as poltronas do famoso auditório empilhadas na calçada enquanto alguém as recolhia num caminhão para levar embora. Pensei com tristeza: é um pouco da história do nosso Rádio que está sendo descartado.

Por mais que evitasse conversar sobre o assunto, contaram-me depois que os discos antigos daquela coleção enorme e histórica haviam sido quebrados. Os arquivos de novelas e contos – os que vieram de fora e os que nós escrevemos aqui – foram todos queimados. Que acervo valioso para um museu do Rádio foi perdido então.

Houve um grande esforço no sentido de modificar o estilo de rádio da Bedois, dando uma imagem nova à emissora. Nessa empreitada empenharam-se alguns radialistas de reconhecido valor, com destaque para Jair Brito e Renato Mazânek que estiveram no comando.

A Bedois sempre teve vocação para as transmissões de grandes eventos. Com esse espírito, em 1969, enviou Gilberto Fontoura à Itália para transmitir o “FESTIVAL DE SAN REMO”. Foi mais uma iniciativa marcante.

O dia 20 de julho de 1969 foi de muito trabalho e grandes emoções para a equipe da Rádio Clube Paranaense.

Era domingo. Às 10h da manhã Ney Costa e Vinícius Coelho transmitiram, diretamente de Paris, o amistoso Red Star x Coritiba.

Logo após essa transmissão a Clube passou a falar do Estádio Joaquim Américo, com o jogo Atlético x Santos. O narrador foi Carneiro Neto, o comentarista Marcus Aurélio de Castro e o repórter Dias Lopes.

Na sequência, às 17h, a Bedois passou a transmitir de Assunção, Paraguai, o jogo Paraguai x Brasil, em eliminatória pela Copa do Mundo de 70. A narração foi de Fuad Kalil, os comentários de Borba Filho e reportagens de J. Pedro, tendo Oldemar Kramer no Plantão.

Por fim, a partir das 20h, Ayrton Cordeiro (que estava nos Estados Unidos como bolsista da Harvard University) transmitiu, diretamente de Cabo Canaveral, na Flórida, a histórica e emocionante chegada do homem à lua. Com essa transmissão do passeio dos astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin em solo lunar a Bedois completou esse dia extraordinário e empolgante. Foram quatro transmissões de peso num mesmo dia. O diretor era Jair Brito e o diretor comercial que conseguiu a cobertura publicitária para esse grande feito foi o competente Renato Mazânek.

O setor esportivo continuou em evidência com a participação de nomes de peso como Ayrton Cordeiro, Fuad Kalil, Nei Costa, Carneiro Neto, Dias Lopes, Antonio Carlos Gomes (Quati), Carlos Marassi, Wilson Brustolim, Jota Pedro, Edson Luiz e Norberto Trevisan.

Na parte de notícias destacou-se Edson Marassi. Nas reportagens fizeram sucesso José Domingos, José Vicente e Chaim. Eles apresentavam, com a participação de Hamilton Correa, um programa de grande repercussão chamado “Plantão Policial – o olho da lei sobre a cidade”.

Chaim tornou-se famoso pelo seu linguajar característico. Ele usava a linguagem dos malandros, dos “malacos” como ele os chamava. Era chamado de “Chaim, o Califa” e criou um tipo inesquecível.

Depois de algum tempo os novos proprietários venderam a emissora para outro grupo, esse liderado pelo Sr. Munir Guérios. Pouco tempo se passou e a Rádio foi vendida novamente, desta feita para o Sr. Erwin Bonkowski que já era proprietário da Rádio Colombo.

Foi uma fase muito difícil da Rádio Clube Paranaense. Não encontrando o apoio que esperava, Erwin enfrentou sérias dificuldades e também teve que vender a Bedois.

Nesse período o povo paranaense esteve próximo de perder a sua popular emissora. Terceira do Brasil, com tantas e tão nobres tradições, a Rádio Clube estava prestes de ser declarada perempta. Pela legislação da época, as emissoras de rádio não podiam ter títulos protestados; a Bedois os tinha em grande número. Pela legislação, as emissoras não podiam deixar fora do ar os seus transmissores, a não ser pelo prazo autorizado pelo DENTEL para consertos; a Clube estava com transmissores de Ondas Curtas desligados por falta de suas caríssimas válvulas. Pela legislação, as emissoras deviam operar com os seus transmissores na potência autorizada; as Ondas Médias da Bedois não estavam podendo cumprir este compromisso, em mais uma falha gravíssima. O que popularmente o povo chama de cassação estava na iminência de acontecer. E foi então que surgiu uma luz.

A maneira como a Rádio Clube Paranaense foi salva e a luta pela sua recuperação, falaremos adiante.

Ubiratan Lustosa. O Rádio do Paraná – Fragmentos e sua história. Curitiba, 2009. Instituto Memória Editora e Projetos Culturais. 41 3352 3661. www.institutomemoria.com.br.

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