A Ilha tinha graxains, macacos, bugios e até gatos selvagens…

Publicado em: 19/11/2011

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

A riqueza da multiforme variedade vegetal e marítima da Ilha Encantada até a década de 1960 sustentava uma fauna de botar inveja em qualquer floresta tropical ou litoral dos mares do Sul. Nos costões, lontras, pacas, lobos e leões marinhos extraviados ou autóctones da Ilha desfilavam majestosos, livres e à vontade… Nas enseadas golfinhos e baleias faziam verdadeiras procissões, com direito a cantorias e movimentos de clássicos balés que encantavam curiosos, pescadores e desocupados.

Em terra, gatos do mato (oncinhas de mini porte), graxains, cachorros do mato (pequenos lobos da terra brasilis), macacos, bugios, tamanduás, tatus e cutias. No ar, um passaredo incontável e de beleza sem par. Nas lagoas e rios, jacarés de papo amarelo, tartarugas pequenas e grandes; peixes, muitos peixes de porte avantajado e miríades de lambaris.

Então quem acampava ou velejava por esse Paraíso Terrestre, além de ter a oportunidade da observação, sendo ou não escoteiros do mar, tinham a obrigação moral de preservar e de comunicar a quem de direito, alguma irregularidade, pois os caçadores e pescadores furtivos destruíam “por esporte” dilapidavam esse tesouro natural.

Assim também era nossa mata com madeiras de lei e madeiras nobres de várias espécies, que embora exploradas comercialmente, não tinham reposição e foram sendo extintas.

 Certo acampamento que fizemos no Morro do Padre Doutor (atual Rodovia Admar Gonzaga), uma reserva natural soberba, nos trouxe algumas apreensões e riscos… Jamais e em lugar algum, nossos acampamentos foram desrespeitados, mas, ali perto da Represa da Lagoa (um dos mananciais de água potável da Cidade e bebedouro habitual da fauna local), constatamos quanto eram perigosos os “desportistas”, como eles se auto-proclamavam.

Era nosso costume acomodar nossos víveres em jiraus, ou em alguns galhos mais fortes de uma árvore sem, entretanto, lhe causar danos. Nesse acampamento, roubaram-nos vários itens de nossa alimentação, e só não foi pior, por que tínhamos estoque de outros alimentos não perecíveis.

Os escoteiros Seniores de nosso grupo queriam sair à caça dos ladrões, mas eu não permiti, pois durante o temo de nossa presença ali, ouvíramos tiros muitos perto e pânicos na fauna que passava em fuga por nosso acampamento. Não eram mais desportistas, eram criminosos e bandidos, pois não vacilaram em tentar nos intimidar.

Encerrado o acampamento, seguimos a pé pela estrada única e então eles passaram em um caminhão tipo Pau de Arara com gaiolas, armadilhas e armas que exibiam abertamente e então percebemos que algumas não eram de caça… Eram armas letais e de uso criminoso… Discretamente anotei a placa do veículo e fiz um relato aos diversos níveis policiais e judiciais da Capital. Trágica constatação: o grupo era formado por policiais de folga que acompanhavam convidados estranhos à Santa Catarina. E mais: nos aconselharam a ter cautela com nossos procedimentos, “pois nós estávamos errados, eis que eles tinham licença para caçar em qualquer lugar de Santa Catarina, e que poderíamos ser atingidos acidentalmente no meio do mato, confundidos com veadinhos ou pacas…”.

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