A importância da produção local

Publicado em: 23/03/2009

Por conta de um comentário sobre um texto postado em Caros Ouvintes sobre a CBN Fortaleza, citei o exemplo de um site importante no contexto do jornalismo social: ADITAL – Agência de Informação Frei Tito para América Latina.Achei importante registrar esse paradoxo, o dos meios de comunicação fora do eixo Rio-São Paulo e gostaria de fazer uma reflexão sobre o assunto.

No caso de Fortaleza, citado na postagem a qual me referi (e que serve de exemplo para muitas outras cidades ou estados) há, de um lado, uma grande empresa jornalística, que tem uma emissora de rádio, também jornalística, que poderia gerar localmente sua programação informativa oferecendo à cidade e ao ouvinte uma programação própria, feita por profissionais cearenses (muitos deles excelentes, diga-se) e poderia até encabeçar uma rede estadual de emissoras, sem perder o foco nacional, podendo adquirir pacotes informativos nacionais atualizados e bem feitos, disponíveis hoje no mercado em tempo real por muitas e ótimas empresas geradoras de conteúdo.

Mas não. Preferiu importar uma programação via satélite. Nada contra a geradora. A CBN, no caso é uma rádio bem feita, com grandes profissionais e uma programação atraente, mas não é uma rádio cearense, apesar dos horários abertos ao Estado. As redes podem e devem ocupar seu espaço e já falamos sobre isso aqui, mas não devem servir de agentes do comodismo empresarial que dilapida a produção local.

Assim, o espaço para os profissionais locais diminui, o potencial informativo do estado não é aproveitado e o rádio local não se desenvolve.

De outro lado temos em Fortaleza um exemplo diametralmente oposto, uma agência de noticias, bem concebida, voltada para a America Latina e Caribe, a maior agência de noticias sociais do mundo, que emprega muitos profissionais, que poderia gerar muitos outros empregos nessa área, agência que pratica um jornalismo ético, independente, esclarecedor, que tem mais de 20 milhões de acessos por ano, que transmite em dois idiomas: português e espanhol e que poderia transmitir também em inglês, italiano, russo, chinês e francês, se não estivesse à beira da inviabilidade econômica pela total ausência de patrocinadores.

Cá entre nós: quem não quer anunciar numa audiência de 20 milhões de pessoas num segmento altamente intelectualizado? Mas a ADITAL está lá, no Ceará. Os mídias das grandes agências não a conhecem e, se conhecem, não se importam, ignoram sua importância e seu potencial.

Mas a ADITAL, funciona numa casa, no bairro União em Fortaleza e não na Avenida Paulista; não tem um departamento comercial organizado, que custa caro para implantar. Será que a ADITAL terá que sair da capital cearense e cair nas mãos de uma grande empresa de comunicação para crescer?  Por que se dá tão pouco valor às produções locais?  Os departamentos de mídia das grandes agências não conhecem esse potencial pulverizado pelo país, não se preocupam com essa potencialidade tão importante para as vendas de seus anunciantes. Comodismo, voltado para o próprio umbigo ou falta de informação?

Jair Brito, também em CAROS OUVINTES, fala sobre a viabilidade de uma rádio jornalística paulistana. Como ele mesmo cita, tentou introduzir uma programação voltada para a capital paulista na rádio que dirigia. Mas foi demitido antes que “emplacasse” seu projeto, do qual eu também estava interessado em participar.

Assim vão sendo jogadas fora grandes possibilidades, num mercado tão competitivo, que precisa que essas opções existam e dêem certo.

A produção local precisa ser estimulada e novas idéias introduzidas por diversas razões. No caso do rádio ele tem sua linguagem própria, está mais perto da sua audiência, pode falar diretamente com as pessoas, tem o imediatismo que outros meios não têm. Há profissionais saindo das faculdades sem espaço para trabalhar. Então, eles correm para as grandes cidades, disputam um mercado limitado e se submetem a trabalhar por salários vis, efeito da oferta e da procura. Poderiam encontrar seus espaços nas cidades onde vivem, realizando um grande trabalho e contribuindo com a melhoria dos meios de comunicação locais.

As agências de Publicidade poderiam ter um acompanhamento melhor do rádio no Brasil, monitorando as rádios regionais e de grandes cidades. As agências estaduais cuidariam das rádios do interior de seus estados e toda essa informação poderia estar centralizada num sistema único de consulta, que as grandes agências poderiam muito bem criar e alimentar. Ali o mídia teria acesso a todas as informações das rádios e suas praças: a audiência, os programas, os comunicadores, os horários de programas, as tabelas de preços, as margens de negociação, a grade de programação, a localização geográfica e cobertura, as características sócio-culturais de cada cidade, o endereço, o nome do grupo a que pertence, telefones, e-mails, nomes de diretores e funcionários, equipamento que utiliza, tudo o que se quisesse. A informática está ai para resolver o problema estratégico da centralização dessas informações.

Profissionais como Jair Brito poderiam viajar o Brasil realizando consultoria às rádios, ajudando a elaborar programações eficientes, treinando novos profissionais, melhorando a qualidade das rádios. Mas tudo isso exige empresários modernos e com bala na agulha para os inevitáveis investimentos. Porque o retorno nunca é imediato, mas é certo quando bem feito. Há um período de implantação e amadurecimento da programação. Depois vem a consolidação da audiência e, por fim o posicionamento no mercado e no segmento escolhido.

Parece complicado? Mas não é. Vale à pena tentar ou, pelo menos, discutir.

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