A moça de branco

Publicado em: 04/04/2006

Vadiemos na busca de algumas saídas para esta despretensiosa hipótese: a moça vestida de branco vai indo para o centro da cidade no seu carrinho, de repente cai uma das chuvas malucas que volta e meia estão caindo e a inundam, e o carrinho pifa numa lagoa.
Por Flávio José Cardozo

Pobre moça do vestido branco, o que faz a pobrezinha numa situação dessas?
Uma possibilidade: o carro entrou na lagoa, morreu, ela tenta algumas vezes que ele pegue, mas não tem jeito, não pega, ela então, que é uma criatura muito bem disposta, não fica perdendo tempo, sai chuva adentro, dona de si, sempre elegante, à procura de um mecânico, pondo na fosca paisagem o tom altivo do seu vestido branco.
Uma outra: o carro sucumbiu na dita represa, ela vira e revira a chave para reanimá-lo, não consegue, resolve então botar em exercício o seu talento crítico: apesar de não ser ainda a estação apropriada, sai do carro, despe com toda a esportividade o vestido branco, fica quase nua, como se na Joaquina ou na praia Mole estivesse, e dá umas braçadas na água, fazendo tudo isso, é claro, como um sutil protesto contra os mal-cuidados bueiros da Prefeitura, gesto que os eventuais espectadores (ou não tão eventuais, dado o sensual apelo da cena) aplaudem com entusiasmo.
Uma terceira: o carro desfaleceu, não tem jeito de voltar ao mundo dos vivos por mais esforço que a moça faça, e eis que vai passando ali por perto um manezinho bem dos nossos todo aflito com o toró, ela o chama com três buzinadas, ele ouve e vem, acha que é socorro que lhe estão pedindo, é um manezinho de alma prestativa, ela abre-lhe a porta, risonha, a simpatia em pessoa, e dá-lhe abrigo, e ficam os dois ali, ela de branco, como uma fada benfazeja, ele todo encharcado, um pinto, mas assim mesmo se sentindo um príncipe, ficam ali até que a água vai baixando, vai baixando como Deus é servido.
Uma quarta: ela abandona dentro da lagoa a porcaria do carro, com cuidadosas passadas chega a um ponto seco, ergue a mão e, sem demora, graças ao seu bem talhado e convidativo porte e ao seu vistoso vestido ainda branco, arranja a salvadora carona.
Uma quinta: já que por artes do clima e históricas deficiências do serviço público, formou-se o medonho charco e o motor do carro se afogou nele, já que sair dali significa molhar e sujar o vestido branco, a moça decide com resignação esperar que a bonança volte, reclina a cabeça no encosto do banco, fecha os olhos, navega ao embalo do rumor da chuva, paciência se o encontro para o qual estava indo charmosa frustrou-se daquele jeito.
As possibilidades são muitas. Qual escolho?
Deixem-me pensar.
Estou pensando. A moça do vestido branco, tão faceira, vai tão feliz no seu carrinho… não, ela não merece o transtorno de seu carrinho morrer nessas antipáticas águas, de ter de botar nelas os pés e o vestido branco, ou de ficar ali presa.
Me chamem de charlatão, de embusteiro, digam que eu é que encrenquei na lagoinha desta conversa, mas não esperem de mim tanta ruindade. Resolvamos assim: a chuva desaba, a moça chega à beira da fatal lagoa, freia, tem o bom senso de saltar ligeirinho para avaliar melhor, fora dos vidros embaçados, as dimensões do obstáculo, vê que é loucura ir adiante, dá marcha à ré, graciosa, e consegue livrar-se daquele apuro. Qual o quê de se aventurar em tão sinistra lagoa.
Me chamem de charlatão, de embusteiro. Mau é que não vou ser inventando tristezas para a moça do vestido branco.
(Do livro Uns papéis que voam,  São Paulo, FTD, 2003)


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