A música que vem do Sul – 4

Publicado em: 17/02/2008

Para mim, é sempre motivo de satisfação saber que existem pessoas como Agilmar Machado e Vilarino Wolff valorizando a sua passagem aqui por Porto Alegre e descobrindo encantos numa metrópole que pode ser destituída de atrativos turísticos, mas que tem de sobra o calor humano da sua gente hospitaleira.
Por José Alberto de Souza

Pois eles me fizeram lembrar outro personagem da noite porto-alegrense que, talvez, tenham conhecido em suas andanças por aqui – nosso grande seresteiro Ademar Sílvio.
Atualmente, o Ademar encontra-se internado no Hospital Santa Clara, da Santa Casa de Misericórdia, submetendo-se a uma série de exames preparatórios à intervenção cirúrgica necessária para restabelecimento de sua saúde inspirando cuidados.
Indivíduo culto e educado há alguns anos venho privando da sua amizade e testemunhando o seu grande valor como artista desprendido que, até pouco tempo atrás, perambulava pelos bares e casas noturnas da nossa Capital.
No seu dizer, assim procedia mais por gosto que por dinheiro, este quando aparece no bolso do cantor liquefaz-se muito rapidamente por ser pouco para matar muita sede.
Tanta lealdade costuma dedicar a seus amigos e companheiros que não hesita em deslocar-se de um extremo a outro de Porto Alegre, quase cem quilômetros gastos na ida e volta, utilizando-se de várias linhas de transporte coletivo, como vinha fazendo ainda recentemente, saindo da sua residência situada na Zona Norte até chegar a Belém Novo, onde é sempre esperado para a reunião musical com a turma do Jorge Machado, normalmente prolongando-se da hora do almoço até a janta.
Numa dessas oportunidades, esse nosso personagem não havia comparecido então, encontrava-me no bar do Getúlio, lá em Belém Novo, e escutava um cidadão pregando a elaboração de um abaixo-assinado de todos os moradores daquele bairro para que o Ademar ali fixasse a sua residência, pois sentiam muito a sua ausência, impossibilitados de ouvir a sua palavra fluente de emérito contador de causos.
Não é que esse companheiro de mesa dizia-se impressionado com certa aula de aviação na qual o Ademar esparramou todo o seu conhecimento da época em que tirava o seu brevê, pilotando o teco-teco Biguá!
Nesse convívio fraternal, ficamos sabendo da tremenda versatilidade desse vulto notável da nossa cultura popular, atestando a sua capacidade como conhecedor profundo da obra de Catulo da Paixão Cearense e intérprete inesquecível de Por Um Beijo – Vai, Meu Amor, Ao Campo Santo – Ontem Ao Luar, que o consagraram em suas apresentações na boate Chão de Estrelas.
Na VII Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, impõe-se o elemento negro que vence na linha de Manifestação Riograndense, a canção Colorada (Aparício da Silva Rillo/Mário Bárbara Dornelles), com seu timbre de voz grave alcança a força necessária para reviver uma época violenta da história gaúcha, tempo de degolas nas revoluções.
Revelou-se ainda como sambista de raiz ao enfrentar pela primeira vez um desfile de escolas, defendendo pela Academia Praiana, o samba enredo Exaltação à Janaina (José Gomes), que lhe exigiu 45 minutos cantando sem parar.
Mais ainda teríamos a falar dessa criatura – Ademar Hilário da Silva, de batismo – cujo nome artístico foi-lhe sugerido por Demóstenes Gonzáles, porém, encerramos aqui mostrando a sua faceta de compositor, extraindo do CD demo Fundo de Gaveta, duas faixas com música e letra de sua autoria intituladas Eu Te Adoro e Por Causa Daquela Mulher.
Caros Ouvintes formula sinceros votos de um pronto restabelecimento a este grande seresteiro para que volte a nos encantar com a emoção de sua presença constante.
 


 
Eu te adoro
Música e letra de
Ademar Hilário da Silva
Mulher,
Tu não podes compreender
Que és a razão do meu viver,
És a causa do meu desespero.
Eu declarei o meu amor,
Me dissestes a sorrir
Que era de outro o teu coração.

Agora,
Passo as noites tão sozinho,
Soluçando com meu pinho
A chorar a minha dor…
Agora, eu choro,
Oh, formosa mulher,
Eu te amo, eu te adoro…

Intérprete: Ademar Sílvio
Arranjos: Marco Faria

[ Clique para ouvir ]

 


Por causa daquela mulher
Música e letra de
Ademar Hilário da Silva
 
Se eu morrer
Amanhã de manhã,
Por mim
Sei que ninguém vai chorar
Porque sou um desses infelizes
Que não tem o direito de amar…

Levo uma vida de louco,
Bebendo e fumando
Pelos cabarés.
Tudo por causa daquela mulher…

Ela destruiu o meu lar,
Trocando-me pela boêmia,
Foram falsas as suas juras,
Foi falso o seu amor…

Se hoje eu vivo sofrendo,
Bebendo e chorando
Pelos cabarés,
Tudo é por causa daquela mulher.

Intérprete: Ademar Sílvio
Arranjos: Marco Farias

[ Clique para ouvir ]

 


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