A Noite dos Desesperados

Publicado em: 23/11/2005

Na década de 30, na Grande Depressão, os Estados Unidos viveram uma fase marcada pela decadência humana.
Por Léo Saballa

Famintos e desesperados, os casais se inscreviam em competições nas quais deveriam dançar incessantemente, às vezes, até a morte, em troca de comida, de roupas e de um prêmio insignificante em dólares, oferecido pelos patrocinadores.
No limite das suas forças, alguns farrapos humanos passavam dias e até semanas se arrastando numa pista de dança. Quem pagava para assistir a esse espetáculo grotesco vibrava na certeza de que as suas vidas não estavam tão desgraçadas assim. Horace McCoy ficou imortalizado ao retratar jornalisticamente a degradação da sociedade, mostrando em 1935 este lado mais miserável da América. Em 1969, o diretor de cinema Sidney Pollack, levou para as telas toda a crueldade da época.
O filme A Noite dos Desesperados foi indicado para nove Oscars. Jane Fonda e Michael Sarrazin brilharam nos papeis principais. O filme é angustiante e incomoda a quem assiste. Os valores humanos são pisoteados entre os dejetos incontinentes depositados no chão. É quase possível sentir o cheiro da podridão humana.
Pois bem, para minha surpresa vejo que este massacre está sendo reeditado em uma forma mais moderna em Joinville. Para faturar comercialmente, uma empresa decidiu usar do mesmo expediente. Oferece um prêmio para quem suportar mais tempo em cima de uma moto.
Candidatos não faltam. Algumas pessoas desempregadas, desesperadas, se inscrevem para ganhar a premiação testando os seus limites físicos e emocionais. Podem até comprometer a saúde ou morrer, pouco importa, mas pelo menos buscaram os 15 minutos de fama.
O que impressiona é o caráter competitivo que tentam impor a essa barbárie, a esse vale-tudo. Não tem nada de esportivo ou de saudável. É pura exploração, vampirismo que conta até com apoio irresponsável de alguns veículos de comunicação. Onde estão as instituições, a polícia, o Ministério Público, a Igreja, a Imprensa, o Centro de Direitos Humanos, a OAB e tantas outras entidades que defendem a dignidade humana?
Se providências imediatas não forem tomadas, daqui a pouco vamos ter exibições macabras em praça pública onde o vencedor será quem conseguir se suicidar com uma faca de corte cego, sem fazer careta, para delírio do público.


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