A Nota

Publicado em: 12/06/2013

Olho esta nota de real que me chega às mãos. Amarfanhada, traz em si as marcas dessa sua vida monetária. O dinheiro – esse intermediário nas transações comerciais humanas – tanto tem de execrado quanto de desejado.

O simples instrumento acaba sendo confundido com a transação; o meio de troca torna-se, assim, o símbolo das operações escusas, da ambição, da ganância, supostamente encarnando esses defeitos, que afinal são dos humanos, não das notas ou moedas.

Deixando de lado a ética das transações, prefiro refletir sobre os caminhos percorridos por essa nota amarrotada, o que acaba me levando a  inevitáveis analogias com os seres humanos, que a inventaram e aos quais serve em sua humilíssima condição de papel utilizado como moeda.

Imagino essa nota novinha, nascendo das hábeis mãos de artistas, artesãos e operários da Casa da Moeda. Desde a simples folha de papel até a condição de nota, foram muitos desenhos, camadas de tinta, impressões, cortes, recursos de segurança, todas as operações, enfim, que fizeram nascer o dinheiro que tenho em minhas mãos.

Junto a milhões de outras notas, suas irmãs, a nota foi seguindo, em embalagens e transportes, até chegar a cofres-fortes, que talvez tenham sido para essa nota uma espécie de solidão tumular antecipada, acontecida ainda antes de sua vida ativa. Resguardada como um valor, a nota preparou-se para entrar na luz do dia, para ser carregada e trocada, servindo ao seu propósito, vivendo seu destino.

Depois das necessárias contagens e recontagens, numa fase de vida bancária controlada, a nota, finalmente, terá sido recebida por alguém, dando início à sua trajetória real nesse complexo mundo das transações econômicas.

Quem terá sido esse alguém? – imagino. Um senhor idoso, que a recebeu como parte de sua magra aposentadoria? Uma velhinha frágil mas ágil, que a pegou como parte de seu pecúlio, com o qual ajuda a sustentar filhos e netos? Um jovem e bem sucedido executivo, que a retirou e enfiou na carteira, para usá-la como troco ou gorjeta? Uma bela mulher, que pagou com ela e outras o táxi que a levou ao shopping luxuoso?

São imensas as possibilidades desse início de vida ativa da nota, e quase incontáveis, depois, as inúmeras trocas de mãos porque passou esse instrumento viabilizador das vendas e compras, esse objeto que ajuda a materializar, desde necessidades básicas até sonhos grandiloquentes de consumo.

Dinheiro é sujo, dizemos às crianças, afirmação mais do que sensata, se pensarmos na materialidade da nota e nas mãos mal lavadas e contaminadas que a seguraram ao longo de sua vida útil. Porém, o quanto cruel podem parecer essas mesmas palavras quando pensamos do ponto de vista dos que idealizaram a nota, a fabricaram, manipularam e embalaram, com sua beleza artística, a maravilha das conquistas tecnológicas de impressão nela incorporadas, os incríveis recursos de segurança nela existentes contra a falsificação. Este crime, segundo as leis, torna-se um crime hediondo, se pudesse ser visto do ponto de vista da própria nota, e de sua finalidade indispensável, com a nobreza das coisas que se sujeitam a todos os papéis para servir às necessidades humanas.

A nota aí está, usada, cansada da lida, das trocas, das idas e vindas. Ah, em quantos bolsos, bolsas e gavetas esteve? Sobre quantos balcões? Quantas vezes poderá ter caído no chão, sendo pisada, molhada?

Terá essa nota sido perdida e achada? Quem sabe poderá ter sido encontrada por uma criança, num vão de calçada, e sido levada correndo ao balcão mais próximo para ser trocada pelo sorvete ou pelas balas antes apenas sonhadas…

Uma nota assim pode ter sido o instrumento de compaixão daqueles que a tinham e ofereceram a um pedinte. Nesses raros momentos, essa simples nota se enobreceu e se humanizou, atingindo, talvez, o ápice de seu destino imaginado pelos que a planejaram, desenharam e fabricaram.

Agora, passando os dedos, ao de leve, pela superfície da nota, sinto uns tracinhos em relevo. Você já reparou neles, caro ouvinte ou leitor, e sabe para que servem? É para que os desprovidos da visão possam manipular as notas, reconhecê-las e utilizá-las, numa das formas de integração ao mundo desses nossos irmãos privados da luz do mundo. Haverá coisa mais bela no destino de uma nota? Haverá recompensa maior para o coração de um moedeiro?

Sabemos, prezado leitor ou ouvinte, que o dinheiro eletrônico, as transações internéticas, os cartões e outros meios, já existentes ou ainda a inventar, substituirão as notas, essas velhas companheiras de toda a nossa vida. Mas, por enquanto, permitamo-nos divagar, como o faço agora, reverentemente, olhando para essa nota de tão pequeno valor monetário mas tão grande valor simbólico.

Alinhada junto a outras, na carteira, vou fazer com que essa velha nota, toda marcada pelas cicatrizes de sua vida monetária, me acompanhe por algum tempo. Desse modo, ao tocá-la, poderei refletir sobre os valores, materiais ou não, que devem nortear minha vida.

2 respostas
  1. j. carino says:

    Obrigado, prezado Fernando. Seu gentil comentário é um incentivo. Espero corresponder.
    Cordial abraço.

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *