A Pesca das Tainhas

Publicado em: 17/06/2012

Virgílio Várzea

Do lado leste, do mais alto cabeço da penedia, o vigia rompera a acenar com sua camisola vermelha. Era um magote de tainhas que negrejara ao longe, à superfície do mar verde, caminhando na direção de terra. De repente, o Delfino, um dos proprietários das redes, que estava de pé sobre um cômoro, a fixar o mar e vários pontos da costa com seus olhos de grande visão, deparou com a enorme manta de peixe, ao mesmo tempo que dera com o sinal do vigia: e no atabalhoamento constante de nervoso, os braços no ar, botou-se a toda par ao rancho, a gritar: – Lá estão abanando! Lá estão abanando! Repontou agora, na altura dos Ganchos, uma manta de peixe que é um Deus nos acuda! Corram! Olha as canoas que larguem. Depressa!… Todos ergueram-se a uma, olhando o mar, com as mãos arqueadas sobre os olhos. Gritos estrugiam de todos os lados: – É verdade, que alentada que era, Nossa Senhora! Nunca se vira tanto peixe assim! Eram para mais de cem mil! Aquilo ia coalhar tudo…

Além, de pé, sobre a rocha alta, o vigia continuava a acenar. As canoas largaram imediatamente para as bandas da Ilhota, afogadas em rolos de espuma que rebentavam ruidosamente à proa, levantando-as no ar. O pessoal das redes deitou a correr por terra, abanando também. O peixe vinha pouco a pouco acostando, entre a ponta do Rapa e as Feiticeiras. Aí as canoas aportaram por instantes, largaram em terra o calão, contornando por fora, em perpendicular à praia, o magote inteiro, agora mais conglobado na volta da enseada.

À proporção que se afastavam as canoas, o patrão à popa ia dando o cabo – e a beta negra desenrolava-se, o chicote em terra, o seio a riscar as águas balançantes. Depois, lá fora, além, as embarcações descreveram uma curva em direção ao Canto das Pedras e as cortiças redondas começaram a flutuar, espaçadas na tralha, como um cordão de enigmáticas reticências, que os vagalhões sacudiam e desalinhavam no seu dorso espumoso.

As canoas aportavam de novo, vazias, alagadas das invasoras ondas hostis, conduzindo a outra ponta da beta, que traçava sobre o mar como o desenho gigantesco de uma ferradura.

Naquele dia era esse o primeiro lanço.

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