A Ponte do Rio Kwai

Publicado em: 23/10/2011

No filme “A Ponte do Rio Kwai” (The Bridge on the River Kwai, Reino Unido/EUA, 1957) o fantástico ator Alec Guinness interpreta um comandante britânico num campo de prisioneiros japonês, na Ásia. Empertigado e orgulhoso de sua ascendência, soldado do império onde o Sol nunca se punha, ele enfrenta o comandante do campo, outro exemplar do ufanismo nacionalista, só que do “Império do Sol Nascente”. O resultado é o embate de duas culturas diferentes em quase tudo, mas muito semelhantes na disciplina militar e na tradição arrogante.O militar nipônico deve construir uma ponte ferroviária sobre o Rio Kwai, para garantir o suprimento das tropas de seu exército de ocupação. Os prisioneiros ingleses são os operários forçados dessa empreitada. O senso de dever e tradições milenares, que vigoravam no Japão de então, não toleravam fracassos, cuja vergonha só era expiável pelo suicídio ritual, o haraquiri. Era isso o que esperava o comandante, caso não cumprisse sua incumbência! O problema era que, descontente com as condições de vida e trabalho dos prisioneiros, o comandante aliado exige de seu par japonês que sejam cumpridas as disposições específicas da Convenção de Genebra.

Para quê… Imediatamente ele foi confinado numa “solitária”: um cubículo onde não havia espaço para ficar de pé ou deitado! Só que os prisioneiros, fiéis à cadeia de comando, “embaçaram” a obra de todas as formas possíveis, até que seu cronograma ficou perigosamente comprometido.

O comandante nipônico, já sentindo o frio de seu sabre na barriga, viu-se forçado a tomar uma decisão culturalmente difícil, mas pragmática:Numa das cenas memoráveis do filme, o personagem interpretado por Guinness é, então, solto da solitária. Trôpego, ele caminha e se posta com olhar altivo diante de seu psicologicamente alquebrado algoz. Este lhe propõe liberdade em troca do trabalho de seus homens. O inglês volta a exigir condições adequadas para os prisioneiros e, mais que isso, o controle da obra! Sem alternativas, o japonês aceita as condições.Vitorioso, o prisioneiro marcha cambaleante, até desabar nos braços de seus soldados, que o carregam em triunfo. Continuavam subjugados, mas haviam conseguido uma vitória que elevou seu moral.

Até aí, nada de mal… O absurdo começa quando a obra é retomada:O comandante britânico transforma o empreendimento num veículo para demonstrar a superioridade britânica sobre os orientais. Ignora os desdobramentos que ele trará para os aliados. Assim, a ponte torna-se um ícone da competência inconsequente, da falta de visão global, da insanidade operosa, mas, também, um “ópio” para os traumas da guerra.

Essa irracionalidade prosseguiu em ritmo acelerado, que passou a preocupar os aliados. Tanto que um grupo foi designado para demolir a obra…

Os explosivos foram posicionados; o detonador armado… Mas, para total estupefação do grupo, o comandante inglês, ao saber de seu intento, em vez de apoiá-lo passou a lutar desesperadamente para evitá-lo! Demorou muito até que ele caísse em si e, consciente de todo o absurdo que protagonizara – a guerra é sempre fértil em “non senses” – ele mesmo detonasse as cargas, com o sacrifício da própria vida: um haraquiri ocidental!

Tudo isso foi para falar de um clássico de cinema? Não! Foi para refletir sobre pessoas que na “guerra” do cotidiano, por orgulho mesquinho ou para provarem “superioridades” raciais, religiosas, nacionais ou profissionais perdem a noção do todo; ignoram as consequências de seus atos; prejudicam pessoas inocentes e indefesas; passam por cima de tudo e de todos para cumprirem suas metas, sem sequer analisá-las.“Soldados” de exércitos comandados por insanos ou oportunistas, fanáticos ou predadores de mercado, sua “competência” e sua “eficiência” destroem o meio ambiente, “quebram” empresas, semeiam medo, caos e morte.Quantas “pontes” eles constroem para destruir seus semelhantes?

Qual o limite desse servilismo, estupidez e alienação? É desse tipo de gente que o mercado precisa? É esse o tipo de formação que a sociedade quer? E, finalmente, onde estamos nós nesse contexto, enquanto pais, educadores e atores?

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