A REVANCHE 3

Publicado em: 30/10/2006

A revanche está reiniciando. Exatamente às 8:47 quando perguntei para a mocinha da recepção, a Ana (confesso que nem pensei em tomar coragem para fazer as perguntas que fiz, mas fiz). 
– Ana, deixa eu te fazer uma pergunta. Você é uma mulher bonita, simpática com um sorriso maravilhoso, mas juro que não é paquera. Eu ouvi você conversando com a sua mãe no celular. Onde ela estava?
Ana respondeu sorrindo, com um “quê?” muito desajeitado seguido de “no médico aguardando a vez”.
Por Fernando Góes

– E você sabe se a recepção tinha televisão?
 De resposta, outro “quê?”. Esse seguido de um sorriso espontâneo.
Respondi apressado.

– Beleza, tudo bem. Vou nessa.

Já virava para ir embora, quando Ana abre um sorriso que de desajeitado não tinha nada e me fala enquanto anota o número de seu celular e me entrega.

– Me liga mais tarde que eu falo se a recepção tinha ou não televisão.

Eu e ela sorrimos. Cada um de um jeito. O meu meio forçado, o dela diferente. Para meio entendedor, meio sorriso basta, certo? Voltando para casa, me peguei pensando na Ana. A do Louro José (confesso que não quis cantar a mocinha. Mas que ela é bonita, simpática e tem um sorriso maravilhoso não tem dúvida). Por falar em dúvida, a mensagem seria mesmo um sinal? Acreditando ou não, aqueles caras deveriam ter me tratado melhor. Eu estava animado e com a idéia na ponta da língua. Um programa de rádio com duração de dois minutinhos narrando histórias hilárias e cheias de suspense divididas em três capítulos irá fazer sucesso. As pessoas gostam de novidades e o rádio precisa de novidades. Tem que caprichar é na produção, viajar no texto e fechar com um locutor experiente que interprete bem o texto (o caro ouvinte se lembra da voz que narrava os episódios da “vida como ela é” exibida no Fantástico há alguns anos atrás? Eu imaginei aquele tom de interpretação). A primeira história inclusive já está pronta. Antes de contar, cheguei em casa e não pensei duas vezes. Liguei para a Ana. A da rádio (repito: não é minha intenção cantar a mocinha, mas nunca se sabe né).

– Tudo bem Ana?
– Oi, é você. Ana respondeu sorrindo.

Ela já aguardava meu telefonema. Mau sinal ou bom sinal?

– Conseguiu a informação?
– Consegui. Tinha televisão sim.

Soltei um “que legal Ana” tão feliz e juro, sem intenção alguma, que acho “legitiminei” a cantada. Mas depois eu decido o que fazer com a “legitimação”. Tenho coisa mais importante a fazer: descobrir a mensagem de otimismo da Ana do Louro José.

– Ana, você faz outra favor para mim?
– Faço. E até acho que sei o que você quer.

Pensei comigo. Calma Ana não atrapalha tudo. Não diga, “você quer me conhecer melhor, não é?”

– Você quer que eu ligue para minha mãe e pergunte alguma coisa. Não é isso?

Como ela descobriu? Deixa pra lá.

– É isso sim Ana. Primeiro pergunta se a televisão estava na GLOBO e depois, se ela prestou atenção na mensagem de otimismo da Ana Maria Braga. Me liga a cobrar, tá bom? Agora sim vamos a tal história. A do programa de rádio. Oswaldo era um cara supersticioso. Mais um supersticioso diferente. Ao contrário dos outros, ele só tinha uma superstição, mas que o deixava agoniado, angustiado e ansioso. A ponto de ele ser convidado a se explicar na delegacia por causa dela.

A história é a seguinte. Oswaldo entra no banco mastigando chiclete. Como de costume, entra na fila e observa as pessoas. Oswaldo é muito observador e já identifica as figuras de sempre. Os Boys e os estudantes. Esses são figurinhas fáceis. Uniformizados ou não, o MP3 é comum. Mas Oswaldo passa os olhos pela fila e pára o olhar em uma figurinha rara em fila de banco. Aliás, pelas contas de Oswaldo, ele nunca cruzou olhares com um policial em fila de banco. Por sinal, policial com cara de pouquíssimos amigos. Oswaldo pede para o boy que estava em sua frente guardar o seu lugar na fila. Tranqüilo, ele sai para jogar o seu chiclete na lixeira, mas sem explicação, desvia o seu olhar para o policial. Para sua surpresa o policial também o encara.

Oswaldo desvia o olhar e baixa a cabeça. Oswaldo se dirige para o meio da banco, onde está a lixeira que está ao lado do garrafão de água. Se policia para não olhar para o policial. Oswaldo joga o chiclete dentro da lixeira. Volta para a fila, mas não tão tranqüilo como foi. O olhar do policial o perturbou. De volta a fila e sem motivo aparente, Oswaldo arregala os olhos, coloca a mão no peito, olha fixamente para a lixeira. De tranqüilo, ele fica tenso. Será que o policial percebera o sobressalto repentino? Com essa história de dar atenção ao olhar do policial, Oswaldo esqueceu de dar atenção à lixeira. Mas porque? A superstição é a lixeira? Oswaldo foi acometido de um mal súbito por causa do olhar do policial? Confira na próxima “Revanche”, mas antes, a mensagem de otimismo da Ana que a outra Ana descobriu e me ligou. “Todas as pessoas de meu relacionamento são abençoadas por DEUS para formarem a corrente de minha prosperidade. Por isso, humildemente, eu vos peço para revelar-me o caminho certo e fazer-me merecedor da graça de conquistar tudo aquilo que é meu por Direito Divino, porquanto sou filho de Deus, feito à sua Imagem e semelhança”. Agora não tenho mais dúvida, a mensagem foi um sinal. 

E para mim. Acredito que nenhum caminho da prosperidade cruza em apresentar  um projeto dentro de uma cozinha.


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