A subvivência dos escritores

Publicado em: 19/11/2012

Academidia | Crônica | Gumercindo Vieira

Interessante, desde que fui convidado a sair de casa pela minha mãe, e aceitei, ainda não havia encontrado, em canto nenhum, a vontade para escrever. Era madrugada de domingo, eu acabara de ter um orgasmo e mamãe bateu a porta do quarto, acendeu a luz e exigiu que eu fosse lavar a louça que sujei. Eu disse que atenderia sua ordem assim que o dia amanhecesse, mas ela estava decidida e eu querendo dormir. A descrição anterior serve apenas para ilustrar a dificuldade de relacionamento entre mim e a pessoa que me deu a luz. É também uma nota introdutória do dramalhão que pretendo tornar público se o editor permitir. São palavras iniciais que não servem como desculpas e que não me abrirão as portas de casa. Também não é essa a minha vontade. Estou aquecido no seio da minha avó. O caso com a minha mãe é símbolo da dificuldade que mais um escritor tem para viver. E é o mote para escrever sobre o título.

Somos a raça mais infeliz que habita a terra. Salvam a nossa consciência uns poucos leitores e eles é que atendem a esperança de um dia olharmos as coisas de um pedestal grego, sentindo um mínimo orgulho da história que tecemos para nossa subvida, em nosso submundo. É isso. Não existe para nós uma maravilhida. O primeiro exemplo que me ocorre é o meu. Batizaram-me com esse nome risível, herdei ainda um sobrenome fajuto e pra fechar… Bom, o último nome é o que tenho de mais chinfrim na carteira de identidade e prefiro nem revelar.

Basta dizer que assino como Gumercindo Vieira, o renegado, ou o abandonado. O neném dentuço e com dificuldades para falar, uma criança manhosa, chata. O adolescente rebelde em casa e tímido na rua. O adulto precoce e inconveniente, vendedor de insegurança e candidato a uma velhice frustrada, espinafrada, reclamada, se a saúde permitir, por um ranzinza solitário, ou morador de um asilo.

As características mais fortes das personagens do escritor medíocre que enxerga de manhã lavando a cara no banheiro se baseia nessa vidinha. Seus heróis são o rascunho da sua biografia, escondidos de modo pífio por singelos pseudônimos, e seus vilões são desenhos malfeitos dos adversários de suas guerras bobas, travadas para satisfazer o orgulho ferido do seu existir.

Esse é o verdadeiro romance dos escritores modernos, pobres almas que insistem em subviver. Mas a quem isso interessa? Aliás, o leitor dessas confidências deve achar que tanta lamúria deve ser por força da literatura. Eu queria que fosse, mas essa força deve ser de um encosto. Eu, que sequer acredito nessas coisas, dou-as como possível resposta, apenas por achar que as ondas de revés das nossas vidas não pode ser obra de um deus bondoso e clamado.

É preciso dizer ainda que nós, os escritores, temos um círculo restrito de amigos. É uma gente que, sabe-se lá por que, tem o nosso mesmo ofício. É com eles que, aos finais de semana, ou quando estendemos as noites de encontro, choramos os erros e tropeços. Com eles sofremos em nossos cativeiros, e como nossos familiares estão satisfeitos por conhecer a face podre de nossa encarnação, achamos abrigo nos ouvidos dos semelhantes, senão é o papel que testemunha o nosso drama e, às vezes, o bar que é palco de nosso terror. Ninguém mais.

O nosso máximo luxo são as noites de autógrafos, quando concluímos a exaustiva missão de completar a trama de um livro. Nesse evento, aparece uma meia-dúzia de gente que não vai ler a obra-prima, mas que contribuíram caridosamente com as finanças do gênio incompreendido. Na consciência deles, estão ajudando a subvivência de mais um escritorzinho. Outros, lá aparecem porque também são escritores. Esses, enchem o livro de críticas invejosas, encontram os erros ortográficos da publicação e batem a palma de suas mãos incompetentes nas costas do autor, como um parabéns. Completam o grupo, uns bobalhões famintos pelo coquetel. Eles não adquirem o exemplar, mas tudo bem, o autor nem os percebe por estar distraído assinando mensagens de agradecimento.

O resto da rotina não é tão diferente dos seres humanos com outros dons. De vez em quando, também fazemos sexo. Inclusive, estou traumatizado com os instantes do meu pós-orgasmo. É normal que o homem relaxe, mas homens com a nossa sorte, são expulsos de casa e ainda têm que lavar a louça. Foi o que aconteceu comigo, depois, lá estava eu com a minha decisão equivocada de deixar para traz a família.

Na mudança, trouxe a certeza de que sentiria saudades de minha irmã mais nova. Esse sentimento cresce e cresce, mas terei paciência. Não cometi uma loucura. Já ouvi história de gente que saiu de casa apenas com a roupa do couro. Fui mais criativo. Enchi a mochila e umas sacolas de supermercado. Mas o grosso da mudança foram os meus livros. Era 29 de outubro, dia nacional do livro, ironicamente, eu estava ocupando o porta-malas do carro de um amigo com os livros da minha fuga de domiciliar.

Nós, escritores, somos autores do próprio drama e isso justifica a intensidade com que percorremos nossos caminhos. É como se precisássemos de sofrimento para daí extravasar no papel as histórias que o leitor devora com satisfação. Somos cônscios da nossa extinção, mas românticos a ponto de insistir em escrever para o passado, deixando para o futuro ideias absurdas e pensamentos ridículos. Nós, os escritores, não sabemos contemporizar. Somos saudosistas mal pagos, cavando com o coração o buraco do nosso enterro, o fim do nosso jeito desesperado de resistir essa subvivência.

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