A tela icônica

Publicado em: 15/02/2012

Difícil entender por que uns atravessam o Atlântico e outros sobrevoam as estepes, planícies e cordilheiras do Oriente para desembarcar em Paris e correr para o Louvre, onde uma Mona Lisa impávida e brejeira seduz a todos desde que retornou ao mais visitado salão de arte do planeta. Não que ela não mereça, porque tem valor simbólico e artístico incontestável. O que intriga é por que essa tela de dimensões acanhadas para a sua fama se tornou um ícone, quando no mesmo Louvre ou no Museu do Prado, em Madri, onde agora foi descoberta uma cópia da pintura, há obras tão ou mais grandiosas, espetaculares, que a Gioconda do mestre Da Vinci.

Uma visita guiada ao Museu do Vaticano, à Capela Sistina e ao Louvre permite tomar contato com obras clássicas repletas de significado não apenas artístico, mas histórico, porque explicam em parte a trajetória do mundo que conhecemos, esse mundo sobre cujo passado pouco sabemos, o que atiça o nosso desejo por respostas e por explicações que deem mais sentido à existência.

Especialistas afirmam que a fama da Mona Lisa advém, por mais estranho que possa parecer, da própria fama. Ou seja, é o quadro mais célebre do mundo por conta da celebridade que alcançou. Roubada do museu em 1911, foi parar na Itália e voltou a Paris, não sem deixar uma rusga entre os homens da bota e os franceses de nariz empinado. Não contentes em brigar com os britânicos, os compatriotas de Arterix têm nos italianos uma turba de rivais, de desafetos – e o episódio do roubo e da devolução da tela icônica alimenta essa rixa já secular.

Não menos estimulador desse sucesso da obra são as versões sobre de quem seria aquele rosto – que, a bem da verdade, não se coaduna com os padrões de beleza de nossos dias. Além de mulher de um comerciante florentino, ela poderia ser uma projeção do próprio Da Vinci ou, como sustentam alguns estudiosos, o rosto do amante do genial pintor renascentista.

A arte clássica ainda atrai os olhares do mundo, e está relativamente bem preservada em muitos lugares, sobretudo na Europa. É lá onde hordas de japoneses, por exemplo, se precipitam sobre afrescos e esculturas, com suas câmaras digitais, tão logo o guia anuncia a importância desse ou daquele artista, dessa ou daquela obra. Em Roma, corre a brincadeira de que, num hipotético jogo macabro, atropelar uma freira vale 500 pontos, e fazer o mesmo com um japonês rende 5.000 pontos!

A Mona Lisa, com seu quê de Capitu, olha a tudo isso com o desdém que o tempo lhe conferiu.

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