A última folha da amendoeira

Publicado em: 06/06/2012

J. Carino *

Linda. Castanho-amarelada. A última folha da amendoeira. Eu a observava em sua luta. Cheia de uma dignidade botânica, agarrava-se com todas as forças ao galho, enquanto a luz acobreada do fim da tarde de outono dourava seus veios marrons, tornando-a quase transparência pura para a luz que começava lentamente a desertar do combate contra o escurecer que chegava de mansinho. Eu a contemplava extasiado enquanto o vento a fustigava. Ela lutava com denodo, parecendo consciente de seu papel de defensora do outono diante da ameaça do inverno. A galharia da amendoeira me parecia patética, como braços de seres frágeis e desesperados erguidos em súplica para um céu que já quase acabava de esconder o azul sob o manto negro da noite.

Eu observara essa árvore por vários meses. Vira o brotar das folhas, no eterno milagre da vida que renasce; depois se formara a copa frondosa e verdejante, linda, recortada contra o céu dos dias claros.

Cada folha era bela em seu verdor juvenil, depois em sua maturidade de folhagem. O brilho da superfície de cada uma refletia com vigor e firmeza o sol da manhã, do meio-dia, da tarde. As folhas eram quase espelhos; quase se podiam ver imagens refletidas nelas, numa exuberante afirmação de vitalidade.

Depois, aos poucos, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, as folhas foram se rendendo à inexorável marcha do tempo. E a velhice chegou para cada uma. O verde-vigor foi cedendo lugar ao amarelado denunciador da proximidade do fim.

Então, tornei-me um espectador comovido do suicídio das folhas. Elas foram caindo. Às vezes, parecia um pacto de morte: muitas caíam juntas. Porém, quase sempre eu via o suicídio solitário de cada folha. Era como se cada folha, das centenas e centenas, respeitasse o momento de finitude dessa folha que chegava ao fim, e que caía, len-ta-mente, lá de cima, num balé comovedor até sua queda silenciosa na calçada.

Caídas sob a sombra demarcada da amendoeira, as folhas eram pisadas pelos pés insensíveis dos transeuntes, alheios a esse drama natural. A calçada transformou-se, então, num mar de folhas – um tapete dourado outonal, embelezando magnificamente a rua.

Agora eu observava a batalha dessa última folha. Passarinhos a caminho de galhos acolhedores, em outros tipos de árvores ainda cobertas de folhas – como na frondosa mangueira não muito distante – pareciam solidários, e soltavam trinados tristes. Um gato vagabundo e um cão vira-latas também me pareceram olhar, de forma cúmplice, a folha fustigada pelo vento. Dentre os humanos, talvez um ou outro, com irremediável alma de poeta, tenha observado a luta da folha. Espero que sim, pois seria uma pena que passasse inteiramente despercebida essa metafórica mensagem sobre o tempo, a vida, a morte, sobre a resistência total à finitude, numa luta inglória e antecipadamente perdida.

Continuei a assistir à luta da bela folha. Depois, levantei do banco meu corpo cansado dos esforços da vida, mantendo, no entanto, durante algum tempo, meu olhar na última folha da amendoeira.

O casaco da escuridão foi vestindo lentamente o dia, enquanto eu me afastava, já sentido no corpo a primeira friagem, ainda leve, ainda tímida, do inverno. Mas, em meu coração e na minha lembrança, guardei para sempre aquela última folha da amendoeira.

* J. Carino é professor aposentado de Filosofia, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Escritor, dedica-se fundamentalmente a crônicas e contos. Tem publicado o livro de crônicas sobre bairros da cidade do Rio, intitulado “Olhando a cidade e outros olhares”, com apresentação de Ruy Castro. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio, que o seduziram com seus programas maravilhosos criados, interpretados e veiculados por um sem número de artistas e profissionais, os construtores de uma perene alma radiofônica brasileira, que é imortal e continua pujante. Num passado já distante, foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita com prazer, narrando seus próprios escritos e outros textos, muitas vezes em atividades beneficentes. Empenha-se no momento em implantar a Web Radio “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora. Email: [email protected]

1 responder
  1. Humberto says:

    Muito boa essa colaboração de Jota Carino. E o Caros Ouvintes continua muito interessante.

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