A universidade e a comunidade, uma viagem cultural

Publicado em: 12/01/2016

Numa viagem incansável pela cultura catarinense, embarcamos em uma aventura acadêmica ousada e inédita: trazer para a universidade personagens que passavam longe das torres da academia catarinense.

A Bossa Nossa de LHR

Essas pessoas, com várias experiências úteis para toda a comunidade, quem diria para o meio universitário, falariam dentro dos muros dos campi, normalmente cerrados à comunidade externa.

Como em toda viagem, tínhamos um planejamento, um plano de passeio, desenhado inicialmente para nos levar a paisagens próximas, pouco conhecidas, mas que proporcionassem às companheiras e aos companheiros de viagem um roteiro agradável e repleto de conhecimento e desfrute. Com a viagem, veio o desejo por cenários mais distantes e desconhecidos. A excursão pela cultura local foi tornando-se complexa.

Somos historiadores, expedicionários de panoramas desérticos e áridos. Obviamente que temos um olhar treinado para passeios longos e extenuantes, porém, nossa maneira de ver, permite codificar e reagrupar elementos que, a princípio, parecem ter pouca conexão. O nosso olhar dá, aos mais diversos aspectos culturais, organicidade. Nossa maneira de ver o mundo propicia conexões culturais.

Foi assim que nossa viagem se estabeleceu. As conexões foram, aos poucos, dando corpo a um evento que tem possibilidade de (re)oxigenar a vida desértica do calendário acadêmico. A viagem, que seria de curta duração, passou a ser programada para três dias, onde navegaríamos pelas ricas histórias e lendas do Pântano do Sul, pela efervescente vida cultural da São Paulo do Lira Paulistana e pela vida de Luiz Henrique Rosa, um artista único e que, como ninguém, significaria um porto seguro para viajantes da cultura local.

Fernando Alexandre, morador  de Florianópolis e criador do blog o Tainha na Rede, nos conduziu pela primeira parada. O documentário sobre o Lira Paulistana, seguido pelas histórias do teatro que acabou formando-se em um lugar para espetáculos musicais, em gravadora e em editora, ajudou-nos, andarilhos da cultura, a entender como aquele ambiente condensou uma gama de seres humanos infatigáveis, prontos para o novo, para o diferente, que capitalizou a cultura paulista e a revolucionou, transformando toda a cultura nacional.

Foi no segundo dia de viagem que mergulhamos na cultura local. Debater e difundir a trajetória brilhante e dinâmica de Luiz Henrique Rosa foi nosso passeio mais profundo. Da superfície da vida de um compositor catarinense mergulhamos na vida de um homem que viveu intensamente a cultura local e acabou conectando um movimento nacional, a Bossa Nova, com o jazz, fazendo um diálogo musical novo e ainda pouco discutido.

É claro, nessa expedição não estávamos sós. Contamos com pessoas que conheciam muito bem o trajeto: Os jornalistas Carlos Damião e Antunes Severo, viajantes experientes, Raulino Rosa, o “Manga Rosa”, e Fernando Bastos, companheiro de Luiz, que conhecia a paragem como poucos, deram a navegação um turbilhão de emoções que foi finalizada por uma apresentação musical magnífica, precisa e tocante de Silvia Abelin e Guinha Ramirez. Que noite!

A expedição pela vida de Luiz Henrique Rosa não se resumiu a essa noite inesquecível. Durante toda a semana, outros viajantes poderiam conhecer sobre o Luiz e sua obra, fundamental para os apreciadores da musica e da cultura nacional, por meio de uma exposição na Biblioteca Universitária. Reveladora de toda sua paixão por Florianópolis, a obra de Luiz ainda foi difundida através de informativos que circularam por toda a cidade, principalmente pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde figuras como Luiz Henrique pouco haviam chamado a atenção.

Não menos importante, o último dia de viagem, calmo e prazeroso, como as águas do Pântano do Sul, foi comandado por uma navegadora única: dona Zenaide de Souza. Histórias de bruxas, causos e rimas, músicas e poesias. Zenaide navegou pelos mitos locais e acabou nos apresentando uma cidade bucólica e poética. Com a comandante, pudemos compreender como foi possível para uma mulher, nascida em uma família tradicional, criar sozinha seus filhos e ainda romper as fronteiras de gênero que a separavam do empreendimento e da pesca: Zenaide acabou tornando-se a primeira mulher na lista da pesca de tainha e a única pessoa de Florianópolis a integrar o Museu da Pessoa.

Cansados, felizes e com novos projetos, esses historiadores, marinheiros de primeira viagem, acabaram essa primeira travessia com um mundo novo em seus horizontes. Novas expedições estão previstas. Nosso olhar, agora revigorado por novas experientes, almeja um novo desconhecido. “Nunca sós”, talvez esse lema nos leve a novas buscas pela cultura. As paisagens estão por aí, prontas e disponíveis para um novo olhar. O olhar que só os inquietos e as incansáveis são capazes de formar, de conectar.

De sorte que depois desses trajetos, percorridos na Semana Luiz Henrique Rosa, que ocorreu entre os dias 23 e 27 de novembro de 2015 na UFSC, e graças ao encontro com Antunes Severo, conseguimos fazer parada noutro porto seguro que nos permitirá alçar novas aventuras e pensar outras experiências. A partir de agora passaremos a fazer parte da equipe de voluntários do Instituto Caros Ouvintes na qualidade de Sócios Colaboradores Voluntários.

Muito nos honra e nos alegra fazer parte deste Instituto que tem promovido a preservação e a divulgação da memória da comunicação social e da cultura no Estado de Santa Catarina. Que novos encontros, linhas, traçados e desafios possam surgir dessa parceria.

Confira as fotos do evento:

A Bossa Nossa de Luiz Henrique Rosa

Texto produzido juntamente com Diego Pacheco

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