A Vida (Fácil) de Cronista

Publicado em: 05/02/2012

O cronista é um sujeito, ou sujeita, como outro qualquer com crises de flatulência e contas a pagar. O que diferencia o cronista é o jeito de olhar para aquilo a que chamamos realidade, além da mania de interpretar o que vê, ou acha que vê, e a necessidade de contar para os outros o que viu. O cronista precisa ter o olhar atento, não treinado, precisa ter senso de oportunidade e, sobretudo, sensibilidade para saber que, por trás das coisas e dos fatos, existem as pessoas protagonizando suas vidas, seus enredos, suas histórias.

O cronista não precisa necessariamente ser um exímio escritor, qualidade rara, precisa é saber contar uma história.

Na verdade, o que ele precisa mesmo é ser bem aquinhoado pela sorte, pois as histórias se contam sozinhas, o tempo todo. Estar no lugar certo, na hora certa significa presenciar ou não a cena, o fato acontecendo. A crônica está sempre por um triz. Que o diga Fernando Sabino, contador da crônica mais linda que eu já li até hoje – A Última Crônica -, ô inveja!

“A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café no balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever. (…) Ao fundo do botequim, um casal de negros acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura de humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus 3 anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao seu redor. Três seres esquivos que compõem à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome…”

Às vezes a crônica se apresenta em vários esquetes, como esta, às vezes numa única significativa cena. A verdade é que a crônica simplesmente acontece; se “escreve” sozinha. O cronista apenas a interpreta e descreve. Como a cena que presenciei esta semana, numa praça feinha de Florianópolis.

Tinha ido ao Cartório do Saco dos Limões em busca de uma certidão, já que nasci no bairro. À espera do ônibus, eu o vi. Sentado num banco do outro lado da praça, um jovem bem vestido rodeado por duas grandes malas, também esperava. Talvez uma carona. Talvez uma saída. Ao lado, um vaso de suculentas de aparência tão desprotegida quanto ele. No colo, a mochila apoiava uma solitária orquídea branca, fresca, cuja embalagem, de festa, não combinava com o seu olhar desolado. Os braços frouxos, abraçados à mochila, contrastavam com a delicadeza da orquídea e, juntos, suculentas, braços e orquídea, contavam histórias de vulnerabilidades. O moço fora despejado da vida de alguém. A orquídea.

No dia seguinte, uma história mais feliz! Vazio, o ônibus aguardava o horário da saída. Entrei e me postei à janela, distraída com a rica fauna humana que por ali transita. O motorista entrou e deu início aos preparativos para assumir seu turno: ajustou a posição do banco, verificou os espelhos laterais, passou o cartão de identificação no leitor ótico, digitou sua senha. Da sacola, com logotipo, retirou uma pequena e desgastada mantilha de crochê, listinhas brancas, verdes, rosas e azuis. Dava para ver que a mantilha fora feita sob medida já que tinha os encaixes e amarrações necessárias ao ajuste. Mãe, namorada, esposa, amante, alguém o ama! Aquela mantilha falava de atenção, de cuidado, de afeto aceito e compartilhado.

Refletindo sobre isso, estar no lugar certo, na hora certa, lembrei: numa certa manhã, há uns cinco ou seis anos, me dirigia ao Estreito quando um carro azul, muito limpo e lustroso, emparelhou com o meu, na sinaleira. Ao volante, uma senhorinha de cabelos brancos bem cortados e penteados, do tipo que usa rolinhos e laquê. Eu na pista do meio, ela na da direita. Fiquei a observá-la, disfarçadamente. Usava um casaquinho rosa e um lenço amarrado no pescoço, as pontinhas viradas para o lado, com esmero. Era uma figura bonitinha. Um quadro!

Ao sinal, deixei que ela arrancasse e mudei de pista colocando-me também à direita. Ainda bem que não a ultrapassei, teria perdido algo precioso. No vidro traseiro do carro, impressa em folha A4, a seguinte advertência:

“Tenho 72 anos. Dirijo bem. Pago meus impostos, portanto tenho direito de estar aqui. Eu lhe respeito. Você me respeita!”.

E foi-se embora, à 60km/h, cuidar da sua vidinha. A cronista aqui diminuiu a marcha e ficou sorrindo, olhos cheios de lágrimas e o coração agradecido pela oportunidade. Atrás, motoristas buzinavam, enfurecidos. Tolos!

(Pensando bem, acho que também vou fazer uma plaquinha).

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