A viúva errada

Publicado em: 26/09/2013

selo-cadeira-do-barbeiroAlberto recebeu a notícia da morte de um ex-vizinho, o Mário. Disseram ao Alberto o quanto seu colega havia sofrido, repetindo aquela antiga história – enfim descansou.

O problema é que Alberto não era bom com as palavras, tinha dificuldades em encontrar as coisas certas a dizer. Por vezes deu parabéns a mulheres pela sua gravidez quando elas não estavam grávidas. Consolar uma sofredora viúva seria um martírio.

Quando via Lígia, a viúva de Mário, desviava, fez isso duas ou três vezes. Certa noite indignado com sua falta de coragem ensaiou o que dizer. Preparou um pequeno, mas emocionado discurso. Já na manhã seguinte encontrou a viúva em frente a uma praça. Ela caminhava devagar e de cabeça baixa. Alberto recapitulou o discurso que tinha na mente, encheu-se de coragem, parou em frente à Lígia e disse:

– Escute, por favor. Sei que estas sofrendo. Mas pense comigo. O pobre do Mário estava sofrendo muito. Estava vivendo um verdadeiro inferno. Sofria demais. Ninguém merece o que ele vinha suportando, aliás, suportando por muito tempo. As pessoas merecem e querem ser felizes. E tenha a certeza de uma coisa, ele está muito melhor agora. Pense nisso, seja generosa. Torça por ele. Agora sim ele se livrou do que o fazia sofrer. Está em paz e isso é o que importa.

Lígia saiu aos prantos. Depois de dar alguns passos virou-se para Alberto e disse:

– Cachorro. Ordinário. Vocês são todos iguais.

Alberto não entendia. Seu consolo parecia perfeito. No almoço encontrou Henrique que também conhecia o casal. Ele disse a Henrique que havia encontrado com Lígia naquela manhã e ela estava muito mal. Antes de contar de seu consolo, Henrique disse:

– Não é para menos, Alberto. O que o Mário fez foi imperdoável. Deixar a Lígia, aquela mulher incrível, foi horrível.

– Ele a deixou? – Perguntou Alberto.

– Sim – Respondeu Henrique, e continuou – Ele a traiu. Estava com outra mulher há anos. Simplesmente chegou em casa e foi dizendo que não aguentava mais aquela vida, que parecia um inferno, que merecia ser feliz e queria viver em paz. A coitada da Lígia está acabada, se conseguir vê-la outra vez procure falar com ela e consolá-la.
Alberto lembrou de outro Mário, o marido de Marta, e perguntou:

– E o Mário da Marta?

– O Mário da Marta morreu rapaz. Eu já tinha te falado.

A cabeça de Alberto parecia que iria explodir. Havia consolado a viúva errada.

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