A voz quente e amaciada de Neide Mariarrosa

Publicado em: 13/12/2015

Eu Sou Assim é o título do único LP gravado pela cantora catarinense Neide Maria Rosa que se projetou no Brasil com o nome de Neide Mariarrosa, como lhe batizou o colunista Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto.

DSCN0719O LP reúne uma seleção de 12 músicas de autores catarinenses ou que aqui viviam em 1988 e que são interpretadas por Neide Maria, com acompanhamento de músicos também locais. É um projeto da Fundação Franklin Cascaes com direção artística, produção executiva, pesquisa e fotos da capa de Norberto Depizzolatti. A apresentação do disco foi feita pelo professor, músico e compositor Osvaldo Ferreira de Melo, com estas palavras.

“Há pessoas que se doam com tanta intensidade à sua terra que passam a representar a parte humana de seu patrimônio cultural.

É o caso de Neide Mariarrosa. Talento privilegiado na interpretação de canções do variado espectro da música popular brasileira, tornou-se a voz feminina mais conhecida, mais respeitada e mais aplaudida de quantas têm passado pelos microfones da Capital Catarinense.

A história do rádio em Santa Catarina tem nessa cantora de voz quente e amaciada pelo seu bem-querer com a vida e com as pessoas, uma personagem da maior importância. A noite florianopolitana nunca a dispensou, embora Neide muitas vezes tenha recusado convites para apresentações profissionais a fim de não frustrar amigos cujos saraus domésticos a estavam aguardando.

De 1965 a 1970, os microfones de Florianópolis ficaram sem sua estrela maior. Foi o período em que ela esteve no Rio de Janeiro, a convite de Elizeth Cardoso, em cuja casa se hospedou. No Rio cantou com grande êxito nos principais ambientes onde se apresentavam os monstros sagrados da MPB de então. Fez novos amigos entre os quais Jacob do Bandolim, que fazia questão da presença de Neide em sua casa, quando das memoráveis reuniões que punham em comunhão artística as grandes personalidades do choro e do samba que viviam ou estavam no Rio de Janeiro.

Um dia, não mais teria suportado as saudades dos familiares, dos velhos amigos, do vento sul, sei lá do que mais, e veio de volta. Já então, nessa segunda fase ilhoa, Neide passou a repartir-se profissionalmente entre o canto e diversas atividades nas áreas do turismo e promoção cultural, pois sua experiência fê-la requisitada por vários órgãos da administração estadual e municipal.

Havia, no entanto, uma lacuna a ser preenchida no “curriculum vitae” de nossa cantora. Faltava-lhe a gravação de um LP onde pudesse eternizar a riqueza de suas interpretações tão personalizadas. Surgem em cena o Norberto Depizzolatti e a Fundação Franklin Cascaes. Obtido o apoio da Prefeitura, da Souza Cruz e da RBS, partiu-se para o projeto de um disco que reunisse composições de autores florianopolitanos, especialmente daqueles que Neide Mariarrosa, ao longo de sua carreira artística já interpretara. Norberto foi incansável. Assumiu essa nova experiência profissional e produziu o disco com grande competência.

Este LP tem assim, além de seu valor intrínseco, um valor cultural mais amplo, qual seja o de registrar um pouco da história do cancioneiro surgido espontaneamente em Florianópolis, a partir de suas principais raízes: as modinhas portuguesas de elaboração açoriana e riquíssimos ritmos de contribuição negra à nossa cultura. Embora não houvesse a intenção de registrar folclore, é inegável que em várias composições gravadas por Neide Mariarrosa, estão presentes, lá no fundo (e num caso de forma bem explícita), essas raízes que dão um sotaque todo especial à MPB que se produziu e se produz na Capital Catarinense. Os arranjos e acompanhamentos, feitos também por florianopolitanos ou por pessoas com suficiente vivência na Ilha, ajudaram a criar este clima tão especial.

Tudo leva a crer, pois, que o disco de Neide – cujas interpretações tão primorosas – se constitua num dos mais importantes marcos na história da música popular em nosso país”.

Eu sou assim

LP Neide Mariarrosa. Agosto / Setembro 1988. Produção institucional: Fundação Franklin Cascaes. Direção artística, produção executiva, pesquisa e fotos da capa de Norberto Depizzolatti. Direção de estúdio, gravação e mixagem de Carlos Charlone. Projeto gráfico e arte final de Sylvio Mantovani. Fotos do encarte do arquivo de Neide Mariarrosa. Arranjo e regência: Carlos Alberto Angioletti Vieira. Violinos: Roberto Ferreira de Melo, Carlos Augusto Vieira, Jeferson Santos Dela Rocca e Carlos Alberto Angioletti Vieira. Violas: André Luiz Vieira e Katarina Grubisic. Violoncelo e violão (tenor) Carlos Vieira e (7 cordas) Paulo Roberto Vieira. Patrocínio Cultural Souza Cruz, RBS, Cidade de Florianópolis.

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