ABAIXO A ROTINA

Publicado em: 12/03/2007

1. “Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã.
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar / E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar / E me beija com a boca de café
Por Elóy Simões

Todo dia eu só penso em poder parar / Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde, como era de se esperar / Ela pega e me espera no portão.
Diz que está muito louca pra beijar / E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar / E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã”.
2. Éramos como unha e carne. Trabalhávamos no mesmo lugar, tomávamos junto uma cervejinha após o expediente, adorávamos rádio, que ouvíamos rádio quando podíamos e discutíamos programas e músicas.
Um dia ele chegou pra mim e lascou: não quero mais ouvir rádio. E diante da minha surpresa, completou: “está tudo igual. Agora, até as mesmas músicas eles repetem o tempo todo”.
Há muitos anos aconteceu isso. De lá para cá, cada qual rumou para um canto diferente. Nunca mais nos falamos. Se ele ouvir ou ouvisse rádio hoje com a mesma freqüência de antigamente, está ou estaria mais horrorizado ainda. Porque, parodiando o Chico Buarque, todo dia o rádio faz tudo sempre igual.
3. Dizem que isso é conseqüência do trabalho de divulgação das gravadoras. E há, até, quem afirme que tem muito jabaculê aí. Sinceramente, não acredito, da mesma forma que não creio em coincidência. Comodismo, talvez.
4. Jabaculê, comodismo ou coincidência, dê o nome que você preferir, o fato é que a maioria das emissoras se repete, bate na mesma tecla, insiste com os mesmos artistas e as mesmas músicas, e prestam, assim, um desserviço à cultura musical brasileira. Um desserviço pra elas mesmo, inclusive, porque lugar comum cansa.
5. Dê uma olhada em uma loja que vende CD. Qualquer uma. Perca uns minutinhos pesquisando. Você vai, com certeza, descobrir um sem número de artistas de excelente qualidade que nunca cantam ou tocam nas nossas emissoras. E um monte de belíssimas canções que jamais são divulgadas. O povo gosta mesmo é de sucesso, disse-me outro dia um radialista. Só se liga quando a gente transmite um ritmo, um cantor ou uma cantora que está na moda. Que me desculpe, meu caro amigo, mas isso é papo furado. É impossível saber que alguém não gosta de algo que nunca provou.
6. Vamos acabar com a rotina, radialistas. Acabar com o lugar comum. E dar chance pra esse monte de talentos que já desistiram de bater na sua porta. O ouvinte é muito mais inteligente, tem muito mais bom gosto do que vocês pensam.


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