Alô, ouvintes! Aqui fala um locutor com voz de locutor

Publicado em: 26/02/2014

Dois velhotes, beirando os 80 anos, conversavam na fila de um supermercado em Curitiba, quando uma senhora da mesma faixa de idade fez a pergunta.

selo-sintonia-fina– O senhor tem voz de locutor de rádio. Foi locutor?

A resposta positiva ensejou uma conversa de saudosistas durante alguns minutos. Falou-se do rádio de antigamente, quando locutores tinham voz, ritmo, dicção e sabiam interpretar um texto como fazem os melhores atores.

Foi o tempo do rádio eclético onde os auditórios se transformavam numa das atrações de grandes e pequenas cidades brasileiras.

Ali desfilavam os talentos da música, os calouros desafinados e os com afinação, os jovens de boa cabeça respondendo sobre temas que despertavam interesse na plateia, plateia  que se encantava com duplas sertanejas e cantores líricos numa programação com todo tipo de atrações, que começava depois da Voz do Brasil e terminava perto das 22 horas.

Foi o tempo em que o rádio era a principal fonte de informação do público e os locutores noticiaristas venerados, como foram Heron Domingues, Milton Pereira, Adolfo Zigelli, Souza Miranda, Antunes Severo e tantos outros.

O rádio mudou e muito, principalmente na área técnica onde novos equipamentos facilitaram as transmissões externas, os microfones ficaram menores e mais sensíveis os discos foram substituídos por computadores, a programação foi direcionada para a violência dando ênfase aos acontecimentos policias.

E os locutores, também mudaram. Deixou  de ser importante o locutor de voz bonita, grave e aveludada, como diziam naquele tempo. Hoje nem precisa ter voz, nem saber ler com correção, nem ter boa dicção. Nada disso é importante.

Com a proliferação de canais de rádio, grande parte das emissoras passou a  funcionar como “locadora de espaço”.

Basta ter dinheiro ou um patrocinador amigo, para se conseguir um horário no rádio. Vereadores, pastores e outros tantos com recursos tomaram grandes espaços na programação radiofônica.

Com isso perderam os bons profissionais que ficaram fora do mercado e perdeu o ouvinte que já não conta com programas inteligentes, alegres, divertidos, feitos por gente do ramo. Já faz tanto tempo que o radio vive sem a participação  dos grandes profissionais da voz bonita, que se precisasse montar uma equipe para lembrar o passado, teria dificuldade de encontrar gente disponível.

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