Amadeu Gonçalves, uma figura fenomenal

Publicado em: 11/04/2006

Nascido em Tapes, no litoral do Rio Grande do Sul, Amadeu Gonçalves foi, ao mesmo tempo, um entusiasta e um sonhador. Dentro de uma rádio não havia parada difícil para ele. Aliás, jamais ouvi o Amadeu dizer que não sabia fazer alguma coisa frente a um microfone ou fora dele. Aí é que estava a marca – patente desse radialista eclético que soube fazer centenas de amigos através dos tempos.
Por Agilmar Machado

Ele apareceu, inicialmente, em Criciúma, por volta da primeira metade dos anos 50. Voltei a me encontrar com ele na cidade de Blumenau, por volta de 1964, onde atuamos na mesma rede de emissoras: as Coligadas.
Outro amigo incondicional seu, foi o ilustrado Salomão Ribas Junior, que, como eu em Blumenau, também dividiu apartamento com Amadeu em Joinville, trabalhando ambos nos mesmos órgãos da “Terra dos Príncipes”. Sua presença em qualquer roda de baixo-astral logo iluminava o ambiente, e a vibração que ele irradiava contagiava a todos.
O nosso saudoso e querido “velho” Rebelo, coordenador do Sesi de Blumenau, acumulava o comando da Liga Blumenauense de Futebol. Muito ligado ao pessoal da imprensa, assim como seus filhos e jovens advogados, Ayrton e Lázaro, foi ele uma das mais chegadas amizades do Amadeu.
Depois do jantar no restaurante Cavalinho Branco, do Hotel Alameda (já extinto), costumávamos confabular sobre os projetos profissionais e pessoais de cada um.
Um dia o Amadeu me saiu com essa: “Cara, acho que vou comandar coisa grande fora da rádio!”
“Coisa grande, Amadeu, cuidado para não ser grande demais”, brinquei com ele. Mas Amadeu, entusiasmado, seguia seu relato: “Acho que vou ser o diretor de arbitragem da Liga”. Dei um salto na cadeira!  “O quê???”  “É isso mesmo, cara, o meu amigo Rebelo acha que levo jeito e entendo da coisa!” “Mas Amadeu, bugre velho, eu sabia que tangueiro já foste e teu pai também o foi, agora entender de bola a esse ponto, isso eu não posso aceitar…” Mudamos de assunto, a conversa descambou para nosso tema predileto – as mulheres –, e fomos adiante…
O tempo passou.
Num sábado, nove da  manhã, – “madrugada” para quem havia enchido a cara na noite anterior lá pela Boate Bambu e pela Piano’s Bar que, malgrado a pomposidade dos nomes, não passavam de duas casas de zona,  batem insistentemente à porta do quarto. Acordei “azedo” e fui logo dizendo ao visitante inoportuno: “Hoje não é dia de levar as roupas para lavar!”. Amadeu roncava alto como um bugio…  “Meu senhor, disse o homem, eu precisava falar com o “doutor” Amadeu (que honrosa promoção àquela hora de um sábado meio nublado…).
Constatando que não me livraria tão fácil da “peça”, berrei: “Ó bugrão, acorda e atende o teu amigo aqui!”.
Levantando-se depois de uma boa espreguiçada na cama, lá veio o “doutor” Amadeu atender o moço. Oi, Genivaldo, o que houve?  E o visitante retrucou orgulhoso: “Doutor”, eu queria saber do senhor qual é o jogo que eu vou apitar amanhã, pois tenho que entrar em concentração desde hoje para fazer uma boa arbitragem! Já te designei para apitar no Vasto Verde, mas vê se faz uma boa arbitragem, se não…
Pois o Amadeu tinha atingido mais uma de suas metas na vida. Depois viria a ser um forte líder de condôminos, na capital do Estado.
Amadeu acabou seus dias, vítima de um pertinaz câncer, num pequeno sítio da família de sua mulher, na localidade de São Bento Baixo, Nova Veneza. Ali foi sepultado. Muitos choraram sua morte. Entre os presentes, lá estava eu, seu amigo incondicional (que o atendi em seus últimos meses de sofrimento atroz)…  Mas lá estava também vertendo lágrimas dos olhos ao lado de sua esposa, durante o ato fúnebre, seu velho e fiel companheiro e amigo, Salomão Ribas Junior… Se ele sentiu essas presenças amigas, certamente esboçou seu mais franco e leal sorriso, agradecido…
Lembro-me que quando o acomodei em meu carro para aquela que seria sua última viagem vivo, entre o hospital e sua casa, simplesmente pediu-me, com a voz enfraquecida: “Cara, passa no teu apartamento antes de seguir para minha casa e pega o CD de “Caminito”, com o cantor Jorge Maciel. Foi sua última vontade. Enquanto viajávamos, ele, ouvindo o tango que fora o preferido de seu pai, chorava copiosamente… “Seguiré tus pasos, Caminito, adiós…”


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