Amigos que vão, mas ficam no “coração”

Publicado em: 19/08/2015

“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”. “Você meu amigo de fé meu irmão camarada”. “O verdadeiro amigo ama em todos os momentos e se torna um irmão em tempos de aflição”.

selo-cadeira-do-barbeiroOs amigos (as) são tão importantes que não vivemos sem eles. As duas primeiras frases são trechos de músicas muito conhecidas.

A última é uma expressão da Bíblia, Provérbios 17:17. Um amigo pode ser fotografado, filmado, gravado, mas é no “coração”, ou na mente, que eles ficam bem guardados. Alguns talvez lembrem do primeiro amigo. Já não é de hoje que se diz que conhecidos e colegas temos muitos, agora amigo, de verdade, são poucos. Amigos moram no “coração”.

Coração simbólico. Coração simbólico, quer dizer nosso íntimo, o que somos em nossa essência. Os amigos moram ali. Fazem parte dos nossos planos, nossas esperanças e ouvem nossos desabafos. Os amigos e amigas vibram com nossas alegrias e nos seguram pelo braço quando notam que vamos fazer besteira. Há quem diga que amigo é aquele que se nossa casa pegasse fogo, ele, o amigo, chegaria antes que os bombeiros. Em amigos temos fé. São de fato irmãos nascidos para tempos de aflição.

De fato há amigos que se apegam mais do que um irmão. Aos nove anos de idade conheci um menino dois anos mais novo. Assim que ele se mudou para o lado de minha casa nos tornamos amigos. Teria muitas crônicas para descrever nossas aventuras de meninos. Pipas, bang bang, futebol de rua, cinema, meninas (essa última sem sucesso).

Tive vários amigos, bons amigos, mas esse meu vizinho fez parte da minha família. De 1982 a 1987 estávamos sempre juntos. Nossas condições financeiras não eram lá muito boas. As do meu amigo eram ainda mais difíceis. Quando veio a notícia de sua repentina mudança sentimos que a amizade seria abalada. Eu costumo dizer que homem não chora, apenas soa pelos olhos, bobagem, claro que homens choram. Mas aos 14 anos tive vergonha de chorar na frente dos outros.

Deixei para chorar escondido. Meu melhor amigo iria embora. Cheguei a visitá-lo em sua nova casa algumas vezes, mas logo cada um tomou seu rumo. Passados quase vinte e cinco anos eu estava num supermercado aqui no bairro em que sempre morei. Enquanto aguardava minha vez na padaria vi um homem me olhando. Achei ali um rosto desconhecido.

Ele continuou me olhando e veio em minha direção. Só então vi que era meu amigo. Mais de vinte anos haviam se passado e lá estava ele. Nos abraçamos e tive que me esforçar em prestar atenção em suas palavras porque enquanto ele falava eu lembrava de nossas brincadeiras e travessuras. Meu amigo está bem de saúde.

Seus pais infelizmente faleceram. Senti por não estar ao seu lado naqueles momentos. Ele se formou em Administração e Direito e passou num bom concurso (algo que muitos dos antigos vizinhos talvez não imaginassem). Cheguei em casa falando de nosso encontro. Meus filhos já conheciam todas as nossas histórias, já contei muitas vezes (ainda escreverei de algumas que aprontei com ele). Lembrei-me de outros bons amigos com quem já há tempo não tenho contato.

Hoje tenho bons e verdadeiros amigos, alguns há mais de vinte anos. Me pergunto se vou manter esses amigos ao longo da vida. Sinto por aqueles que perdemos contato, assim como esse que reencontrei. Melhor se ficassem sempre do lado esquerdo do peito – como irmão camarada de tantos caminhos e tantas jornadas – até para os tempos de aflição, mas sempre em nosso coração.

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